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Opinião sobre o rolezinho

  • Autor: Redator

  • Publicado em: 14/10/2016

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A coluna de Maurício Pestana "Rolezinho: Do Masksoud ao Itaquerão" discute a polêmica dos rolezinhos

 

TEXTO: Maurício Pestana* | FOTO: Raquel Espírito Santo | Adaptação web: David Pereira

 

Maurício Pestana discute os rolezinhos em sua coluna | FOTO: Raquel Espírito Santo
Maurício Pestana discute os rolezinhos em sua coluna | FOTO: Raquel Espírito Santo

 

Há mais de 20 anos, um grupo de universitários negros da Universidade de São Paulo (USP), que tinha como um dos líderes o baiano Fernando Conceição, então estudante de comunicação, realizou um ato de extrema ousadia que rendeu metade da capa do jornal Folha de São Paulo, além de destaques nos principais periódicos do país e até mesmo no Wall Street Journal. A façanha foi almoçar no Maksoud Plaza Hotel, um dos mais luxuosos hotéis do Brasil, na época, sem pagar a conta, em protesto por reparações pelas injustiças históricas contra a população negra brasileira.
Naquela ocasião, foram necessários meses para que os doze estudantes negros pudessem se organizar e confrontar a exclusão social simbolizada pelo hotel de luxo, na região da Avenida Paulista. Hoje, as redes sociais facilitam e aceleram o agrupamento de jovens na luta por uma causa. Por exemplo, os rolezinhos, que chegaram a agrupar em apenas um final de semana cerca de 6 mil jovens, sendo boa parte deles moradores das periferias, negros e pobres. Os grupos se deslocaram a espaços tradicionalmente ocupados pela classe média, os shopping centers, gerando pânico entre os frequentadores destes espaços que simbolizam o capitalismo e denunciam a divisão entre classes sociais. O curioso é que, embora haja uma segregação de públicos nestes locais, muitos deles não ficam distantes da periferia. Ou seja, materializam o preconceito ali mesmo, no fundo de seus quintais.

É evidente que o neoliberalismo e o desencantamento com as promessas de soluções rápidas para problemas seculares frustraram a geração que nasceu no inicio dos anos 90. Bandeiras como acesso e cotas raciais na universidade, maior participação do negro na política e outras reivindicações acabaram engolidas por signos capitalistas de status: boa parcela desses jovens está mais preocupada em ter um smartphone de última geração em suas mãos e um tênis Nike nos pés. Nos rolezinhos da garotada que quer curtir um funk no final de semana, a política entra em cena apenas quando a polícia entra em ação e define quem é suspeito de provocar instabilidade nos templos sagrados do consumo. Quem paga a conta? O preto e pobre.
O triste desses episódios é que são decorrentes da situação política da abandonada periferia, que não tem espaços de lazer, espaços culturais e conta com educação de má qualidade. São as ilhas negras desde o fim da escravização. Se comparado às manifestações ocorridas no ano passado, o rolezinho não consegue canalizar um grito - que poderia ser de protesto – por mudanças e respeito por parte das autoridades públicas e privadas. Neste caso, o que vemos é um possível aumento no cerceamento do direito de ir vir, já limitado nas periferias pretas desde 13 de maio de 1888.

Um fato em comum entre o rolezinho de hoje e as manifestações do ano passado é a corrida desenfreada dos “estudiosos” do caos urbano para tentar traduzir o que está acontecendo na distante periferia pobre e preta, outrora ignorada. E aí os discursos são os mais variados: vão da vitimização dos habitués dos shoppings às interpretações racistas e reacionárias.

Não obstante, outra parcela tenta inserir uma politização inexistente nestes acontecimentos. Volto a repetir, a causa só se torna política quando órgãos repressores (que historicamente são sempre os mesmos) como a polícia, seguranças, milícias, enfim, algum braço armado se faz presente, disposto a defender o patrimônio de alguém um pouco mais branco e poderoso.

Tentar compreender essa movimentação, considerando o histórico social e racial de exclusão à qual os negros estão submetidos é fator preponderante na análise dos fatos. Construir estratégias que deem respostas mais concretas a essa juventude carente de suporte do Estado é o ponto inicial para amenizar o apartheid brasileiro, já instituído extraoficialmente há muito tempo.

*Maurício Pestana é diretor executivo da RAÇA BRASIL: pestana@mauriciopestana.com.br

 

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