Mulheres negras brasileiras e norte-americanas dispensam o alisamento e adotam cada vez mais o cabelo crespo

 

TEXTO: Lau Francisco | FOTO: Divulgação | Adaptação web: David Pereira

A atriz e modelo Pâmella Vidal que tem orgulho de seu cabelo crespo | FOTOS: Divulgação

A atriz e modelo Pâmella Vidal que tem orgulho de seu cabelo crespo | FOTOS: Divulgação

Olimpíadas de Londres de 2012. A ginasta norte-americana Gabby Douglas tornou-se a primeira negra a ganhar uma medalha na história da competição. Mas a imagem altiva e orgulhosa do feito conquistado foi maculada no dia seguinte: por meio das redes sociais, mulheres negras americanas criticaram de forma ferrenha o fato de a atleta ter os cabelos alisados. Segundo as internautas, Gabby deixou de representar verdadeiramente a comunidade afro-americana ao não deixar os cabelos naturais. Indignada e indiferente, a jovem atleta disse que as pessoas deveriam parar de se preocupar com coisas como a aparência do cabelo. “Não vou mudar por causa das mensagens”, disparou.

A indignação das mulheres negras americanas não é uma simples bronca, mas sim fruto de uma discussão que hoje é centro das atenções na comunidade negra do país do Tio Sam e também aqui no Brasil: deixar o cabelo natural é um ato necessário e de liberdade? E é sob essa ótica que centenas de mulheres estão deixando de lado o alisamento, pelo simples prazer de reconhecer-se da forma como realmente são.

TRANSIÇÃO NAS RUAS E NA CABEÇA

Para registrar esse momento, para muitos, histórico, uma espécie de pós-movimento Black Power – que ganhou o mundo entre os anos de 1960 e 1970 – uma jornalista e cineasta nascida na Nigéria, criada na Inglaterra e hoje vivendo no bairro do Brooklyn, nos Estados Unidos, resolveu ir às ruas e filmar os rostos felizes de quem aboliu a chapinha. No documentário Transition, Zina Saro Wiwa colheu depoimentos emocionados de mulheres que se cansaram dos produtos químicos, relaxantes e permanentes. A própria cineasta, durante o trabalho, passou também pela transição e confessou que tal experiência mudou a sua vida. Ver seu cabelo natural pela primeira vez em anos foi uma revelação para Zina. Ao contrário do cabelo quebradiço que acreditava ter, ele era encaracolado e tinha uma textura deliciosa.

O filme, narrado em primeira pessoa, ganhou patrocínio do New York Times, foi parar no site do jornal e, inevitavelmente, ganhou o mundo. “Fui obrigada a encarar o meu cabelo de verdade. Eu havia, intencionalmente, passado por uma transição. Isto significa trocar seu cabelo alisado por produtos químicos e voltar à textura naturalmente encaracolada. Por vários motivos, muitas mulheres negras nos Estados Unidos começaram subitamente a retornar à textura natural dos seus cabelos”, diz Zina que, em 1995, perdeu seu pai, Ken Saro Wiwa, assassinado na Nigéria por divulgar ideias de libertação do poder econômicobaseado no petróleo, além de levantar discussões ligadas ao meio ambiente.

 

Para a produtora e atriz Mawusi Tulani (adepta do cabelo black) as referências vieram da família | FOTO: Divulgação

Para a produtora e atriz Mawusi Tulani (adepta do cabelo black) as referências vieram da família | FOTO: Divulgação

Concomitantemente, ares parecidos são respirados no Brasil. Basta perceber pelas ruas, festas e em ambientes de trabalho, que as negras brasileiras também estão assumindo o “seu crespo”. Coincidência? Para muitos, não! A palavra certa para definir este momento seria “referência”. O milagre da multiplicação dos cabelos crespos não está somente nas ruas, marca presença também nas redes sociais. É crescente o número de publicações de páginas no facebook veiculando imagens de lindas mulheres com seus fios naturais. No Youtube, algumas dão aulas e dicas de como cuidar dos cabelos, quais produtos usar e tipos variados de penteados. “As mulheres estão se libertando, não acho que seja uma coincidência ou tendência, mas sim que estamos tendo referências”, explica a coordenadora do Ponto de Cultura Ilú Ònà “Caminhos do Tambor” e da instituição Ilú Obá de Min Educação, Cultura e Arte Negra Baby Amorim, que alisou seu cabelo por 30 anos e hoje passa longe, muito longe dos relaxantes. O fato de atrizes como Taís Araújo e Elisa Lucinda aparecerem na telinha com cabelos naturais reforça a tese de Baby. É como a antiga cultura da comunicação por intermédio do som do tambor: independente da distância, vai deuma mulher para a outra.

Por aqui, as brasileiras também estão se agrupando para defender o cabelo natural e seus significados. Assim como o Dia Nacional do Cabelo Natural, nos EUA, no Brasil a questão não se pauta somente pela estética. A importância da atitude também entra em campo. Em São Paulo, por exemplo, foi criado o Manifesto Crespo, um coletivo de mulheres que nasceu exatamente a partir do porquê da existência do preconceito com o cabelo crespo.

“Existe o desconhecimento sobre os cuidados e penteados com o cabelo natural. Quais são as referências familiares e de convivência que o negro cresce na sociedade brasileira? Infelizmente, vivemos em uma sociedade que nega a nossa cultura e o nosso corpo. Tanto o homem quanto a mulher negra sofrem uma grande pressão para que se ‘enquadrem’ no padrão de beleza do cabelo que não pode ser crespo ou volumoso, para se inserirem no contexto conservador da sociedade, como o mercado de trabalho, por exemplo”, diz Lucia Demezue, uma das criadoras do coletivo, que organiza evento e promove debates sobre o assunto. “Depois dessa experiência com o Coletivo, me sinto cada vez mais com a responsabilidade de levar esta discussão e somar a minha história de vida com as demais, sempreapontando para caminhos com mais leveza e com novos olhares para o que é ‘belo’”, completa Demezue.

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