O colunista Fábio Rogério escreve sobre o orgulho negro e como ele se propaga por meio do rap

 

TEXTO: Fábio Rogério* | FOTO: Cláudio Lira | Adaptação web: David Pereira

O colunista da Revista Raça Brasil, Fábio Rogério | FOTO: Cláudio Lira

O colunista da Revista Raça Brasil, Fábio Rogério | FOTO: Cláudio Lira

Hoje falamos e escrevemos naturalmente, pois temos a liberdade de expressão. Foi-se o tempo em que o Brasil era o país dos segredos. Andar pelas ruas não é tão tranquilo, mas nem se compara ao passado repressor da ditadura, quando praticar capoeira na rua era crime ou vadiagem. Mestre Pastinha, capoeirista que popularizou o esporte, infelizmente não viu a tão marginalizada capoeira ser reconhecida. Apesar da luta dos mestres, não entendo porque não patriotas preferem os esportes orientais. No hip hop, poucos grupos citam o paranauê – entre eles, Face da Morte e Potencial 3.

50 anos do golpe militar no Brasil nos fazem lembrar que a luta por igualdade racial era secundária na época. Mas nos EUA, naquela época, havia o Partido dos Panteras Negras e Martin Luther King Jr. A arte negra que está presente em várias partes do mundo ganhava mais importância. O que me encanta na negritude ao longo de décadas é que, apesar das circunstâncias adversas, a produção artística sempre esteve presente. Lembro com saudades meu primeiro dia de microfone no estúdio da rádio 105 FM em São Paulo, confesso que estava um pouco nervoso. Não foi fácil me sintonizar com aqueles equipamentos, e a responsabilidade de estar sendo ouvido por milhares de pessoas era grande. A primeira música que toquei foi “Negro Drama”, do Racionais MC’s. No ar, disse que gostaria que esse rap levasse as pessoas a pensar e mandei um salve para o já falecido empresário do ramo gospel-black Hairton de Paula, para minha família e para o Bira Show Black, que muito colaborou com meu currículo afro.  Me entristeço com os racistas que ainda não dão paz. Como diria Marcão Dmn, “juridicamente o peso do martelo para nós é diferente”. Casos como o do jogador Tinga revelam racistas conscientes do erro que estão cometendo, sem se importar. Me surpreendi negativamente com as declarações da Lupita Nyong’o, vencedora do Oscar, afirmando que na adolescência rezava para que a sua pele clareasse. Ainda bem que Ajoié é feminina e cuida desta linda atriz, não a deixando só em sua falange espiritual. Isso é inadmissível, pois sem crer na ancestralidade ter valores se torna difícil.

Mas que bom que hoje ela propaga a beleza negra e é uma pessoa feliz. Felicidade também vem do entendimento de que somos uma potência. Quando isso acontece, não há tristeza que atrapalhe, pois ela só existe devido à sensação de impotência. Volto a dizer que as religiões de matriz africana ainda sofrem com os olhos preconceituosos da sociedade. Quando eu era criança, aceitava as energias de uma rezadeira e conselheira chamada Dona Erminia. E como isso me fez bem. No rap, um dos grandes momentos de minha vida foi conviver com o Sabotage. Ele era firme em sua fé! Anos se passaram e um CD temático intitulado “Di Gegê pra Jejês” me chamou a atenção. Quero compartilhar com vocês.

Quem é Gegê? 

Gegê é MC, professor, educador e militante do hip hop. É morador do bairro Cidade Ariston, que fica na cidade de Carapicuíba, São Paulo. Há treze anos vem trabalhando, difundindo e articulando a música rap, através do coletivo Caos do Subúrbio, como instrumento de luta, debate e reflexão. Gegê colaborou com suas composições e rimas com vários coletivos, como Bá Kimbuta, Nus Corre e recentemente com o grupo Família 4 Vidas, além de participar como palestrante e mediador em eventos relacionados às questões da negritude e hip hop militante. No início de 2012, a gravadora independente Rec Livre Records fez o convite ao artista para lançar um projeto musical. Em 2013, foi concluído o disco “Di Gegê Pra Jejês”, compilação que propõe outra linguagem dentro da música rap.

Por que Di Gegê Pra Jejês?

O nome Gegê deriva da palavra Jejê, do Yorubá Adjeje, que significa estrangeiro, forasteiro. O nome do disco vem da reflexão que o artista faz em relação aos povos que atravessaram o Atlântico em condição de escravos e que, por imposição, se tornaram forasteiros e estrangeiros nestas terras, independente de suas origens.

O disco 

A base matiz de seu trabalho é a condição do povo que sobrevive às mazelas do capitalismo, bem como todo e qualquer sistema que enquadra e exclui qualquer homem, mulher e criança e violam seus diretos naturais. A produção é essencialmente boom bap, um dos vários segmentos que a música rap produziu. Boom bap, em inglês, é uma onomatopeia, referência que se faz ao toque básico de um tambor: boom é o grave e bapo agudo, que remete à caixa.

*Fábio Rogério é DJ e locutor do programa Espaço RAP, pela 105 FM www.fabiorogeriomusica.com.br

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