Conheça a história do quilombo Caçandoquinha que até hoje luta pela sua terra

 

Texto: Claudia Canto | Foto: Claudia Canto | Adaptação web Sara Loup

Quilombo Caçandoquinha | Foto: Claudia Canto

Quilombo Caçandoquinha | Foto: Claudia Canto

No ônibus iriam 25 pessoas, a maioria, como eu, pela primeira vez. Viajei ao lado de João Bosco Coelho, um homem apaixonado pela causa e que através do Instituto Luiz Gama desenvolve um trabalho de apoio jurídico às comunidades Quilombolas. Muitas vezes havia conversado com ele sobre o assunto, mas a verdade é que até aquela viagem, não tinha idéia da verdadeira dimensão da questão. Também  não imaginava o tamanho da bagagem que traria de volta, um conteúdo que não encontraria em nenhum banco escolar.

“Os quilombos não pertencem somente ao passado escravagista. Ao contrário, mais de duas mil comunidades quilombolas espalhadas pelo território brasileiro mantêm-se vivas e atuantes. São casas simples construídas pelas mãos dos negros, que representam para a comunidade o valor da liberdade”, explica João Bosco.

O Quilombo Caçandoquinha foi o escolhido. Ele faz parte de diversas comunidades como Praia do Pulso, Caçandoca, Bairro Alto, Saco da Raposa, São Lourenço, Saco do Morcego, Saco da Banana e Praia do Simão. De acordo com o Incra, toda área possui 890 hectares, localizada em uma das mais valorizadas praias do litoral norte de São Paulo. Ao seu redor existem pelo menos 3 luxuosos condomínios fechados, e exatamente por isto, é que o terreno virou palco de intermináveis disputas judiciais.

A história da comunidade iniciou-se em 1858, quando o português José Antunes de Sá comprou a Fazenda Caçandoca. Era dividida em três núcleos administrativos que abrigavam uma casa-sede e um engenho. Cada um deles administrado por um filho de José Antunes: Isídio, Marcolino e Simphonio. Do envolvimento com mulheres negras que trabalhavam nas terras, nasceram filhos ilegítimos.

Em 1881 a fazenda foi dividida entre filhos e netos. Uma parte dos ex-escravos mudou-se para outras localidades. Outra permaneceu na condição de posseiros, com autorização para administrar seu próprio trabalho. Os filhos ilegítimos e ex-escravos deram origem às principais famílias que hoje formam a comunidade da Caçandoca. Na fazenda produziam-se café e aguardente de cana-de-açúcar.

Depois de seu desmembramento, em 1881, o café foi sucessivamente substituído pela banana e a mandioca. Estes alimentos foram vendidos pelos moradores até meados de 1970. A partir desta data a comunidade passou a enfrentar sérios conflitos em função da construção da rodovia BR 101, que liga a cidade de Santos à capital do Rio de Janeiro. Esta obra teve como consequência a expulsão de parte da comunidade de suas terras.

 

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