Raça Indica

Edição especial cinema: Malcolm e Marie, de Sam Levinson, American son, de Kenny Leon e Um limite entre nós (Fences), de Denzel Washington.

 

Malcolm e Marie, de Sam Levinson 

Se você, assim como eu, não leu nada sobre o assunto, quando assistir ao filme “Malcom e Marie”, só pela trilha sonora vai achar que se trata de um filme leve. Não se engane, não é! Malcolm e Marie, lançado neste ano, apresenta os mais profundos conflitos de um jovem casal que dá título ao longa, interpretado por John David Washington  e Zendaya. 

Malcolm é um diretor de cinema, de ego inflado, que acaba de lançar um filme. Marie é uma ex-viciada em drogas, atriz e amargurada por não ter sido reconhecida ou citada no discurso de Malcolm no lançamento de seu filme. 

O longa ganha um tom ainda mais dramático com a linda fotografia em preto e branco. Tudo se passa em uma casa, em uma noite. Enquanto aguardam a publicação de críticas sobre o filme recém-lançado, os dois declaram amor e ódio a cada minuto. Eles apresentam uma capacidade ímpar de ferir a si mesmos e a cada um. É visivelmente um relacionamento abusivo e destrutivo. Aquilo que eles enxergam de admiração e amor no outro, parece, também, causar inveja e ódio. 

As indiretas (ou diretas) e aquilo que não é dito pelos personagens surge de forma inteligentíssima na trilha sonora. Quem nunca pediu perdão ou mandou uma indireta com uma letra de música? É mais ou menos isso que o diretor, Sam Levinson, faz em muitos momentos do filme. 

Como pano de fundo deste romance conturbado estão as expectativas de uma jovem atriz que deseja se reafirmar como tal e de um jovem diretor que não quer ser rotulado como “diretor negro”. 

American son, de Kenny Leon

A cada 23 minutos um jovem negro é assassinado no Brasil. Certamente, este filme poderia contar a história de um jovem negro brasileiro. 

Lançado em 2019, American son apresenta o drama de uma mãe que passa uma noite fria e chuvosa em uma delegacia de polícia à espera de notícias do filho que desapareceu. A história já é conhecida há muito tempo. A peça foi encenada na Broadway com o mesmo nome. 

Kendra Ellis-Connor, interpretada por Kerry Washington, é silenciada a todo momento. Seu pedido de informação, suas exigências por direitos e até solidariedade lhe são negadas. Quando pensa que as coisas vão melhorar ou que poderá receber qualquer tipo de informação sobre o paradeiro do seu filho, com a chegada do ex-marido e pai do rapaz, a coisa fica ainda mais complicada. 

O pai do jovem desaparecido é um homem branco e agente do FBI, que oscila entre “acalmar” a ex-mulher, defender a corporação, destilar racismo e sofrer pelo desaparecimento do filho. Tudo vem à tona em diálogos emocionantes. Kerry Washington está gigante no papel. O filme todo é dela. 

Antes ou depois de assistir American son, vale a pena ver o documentário “Auto de resistência“, de Natasha Neri e Lula Carvalho. 

Um limite entre nós (Fences), de Denzel Washington 

Lançado em 2016, sob direção de Denzel Washington, o filme chegou às salas de cinema com grande promessa de prêmios. A promessa foi cumprida e Viola Davis levou o prêmio de melhor atriz coadjuvante no Globo de Ouro e no Oscar. 

Baseado em peça homônima superconhecida na Broadway, “Um limite entre nós (Fences)” inaugurou uma leva de filmes, inclusive produzidos, dirigidos e estrelados por pessoas negras, em que os intensos diálogos estão em primeiro plano. Os conflitos internos de cada personagem afloram e as relações se tornam cada vez mais complexas. 

Marcado por uma enorme amargura, Troy Maxson, personagem principal interpretado por Denzel Washington, traz um infinito de possibilidades para discutir masculinidades negras. 

O filme é ambientado em 1950 e Troy é um homem frustrado (sonhava em ser jogador de futebol americano e agora seu único e maior desejo é ser motorista de caminhão de lixo), trabalhador, violento, que abusa do álcool, bruto, apaixonado, infiel, intolerante com o filho e com a esposa, Rose Maxson (Viola Davis), com raros momentos de demonstração de ternura, como os que podem ser observados no trato com Gabriel, irmão que ficou mentalmente debilitado devido a um ferimento enquanto lutava na guerra. 

A vida foi dura com Troy. O racismo, as desigualdades e o machismo não deram trégua e ele acredita que ser duro consigo mesmo e com sua família é o único caminho para torná-los fortes e sobreviventes. Ele está enganado! 

Sua esposa, Rose, não se cansa de tentar derrubar a barreira que existe entre cada membro da família. Os diálogos são de tirar o fôlego, de fato, diálogos que pareciam ser possíveis apenas no teatro e que Denzel e Viola transportam para o cinema com grandeza. 

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Jornalista, produtora de conteúdo, defensora dos direitos humanos e promotora da equidade de gênero e raça. Escreve sobre identidade e autoestima para a revista impressa e sobre livros e filmes para o site.

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