Raça Indica

Raça Indica sugere os livros: Orixás no terreiro sagrado do samba, de Claudia Alexandre; Meu nome é Maalum, de Eduardo Lurnel e Magna Domingues e Super Black, de Renata Oliveira e Tatiane Santos. 

Orixás no terreiro sagrado do samba: Exu & Ogum no Candomblé da Vai-Vai, livro de Claudia Alexandre

Não sei quantas vezes estive na escola de samba Vai-Vai. Geralmente, como a maioria das pessoas que frequentam o local esporadicamente, fiquei na parte externa, na rua mesmo, entre os becos e vielas do Bixiga (bairro do centro da cidade de São Paulo). 

Apesar de ter total ciência sobre a importância da escola para o samba, para o bairro, para a cidade e para a comunidade negra, nunca imaginei que pudesse guardar uma história tão rica e com tantos mistérios. 

Orixás no terreiro sagrado do samba: Exu & Ogum no Candomblé da Vai-Vai, livro de Claudia Alexandre, lançado neste ano (2021), apresenta uma extensa e cuidadosa pesquisa sobre a conexão estreita entre o samba e a religiosidade. 

São 208 páginas divididas em três capítulos, um posfácio e anexo indispensáveis para o que a obra se propõe a investigar: “os cultos aos orixás Exu e Ogum em um terreiro de samba. Na obra, a autora procura entender como essas práticas são possíveis fora de um terreiro de Candomblé. O livro entrega muito mais que isso e me deixou ainda com mais sede da história incrível desse espaço de resistência negra, enraizado no centro da cidade de São Paulo. 

Logo na introdução, a autora indica que “[…] lá, por muitas vezes, o terreiro de samba transforma-se em um espaço sagrado, em um terreiro de orixás, revelando uma importante ligação com as tradições de Candomblé”. A pesquisa assinala que essa conexão é profunda. Fiquei com a sensação de que são inseparáveis na história da Vai-Vai. A autora, inclusive, alerta logo nas primeiras páginas que o olhar e a pesquisa vão muito além da conexão vista no “espetáculo estético”, nos desfiles de carnaval. 

O livro revela que a escola de samba segue um calendário religioso, mantém altares, realiza festas, rituais e cerimônias para os orixás. 

Assim, Claudia Alexandre responde uma série de perguntas exploratórias sobre o histórico dessas relações entre o sagrado e o samba; sobre ancestralidade e ritualidade. Para percorrer este caminho, ela colheu depoimentos dos membros da escola, de autoridades religiosas, fontes da comunidade e realizou uma revisão extensa da literatura sobre o assunto, para chegar à conclusão que, de fato, o terreiro do samba da Vai-Vai é o terreiro sagrado dos dois orixás padroeiros da escola, Exu e Ogum.

Para além da constatação que dá nome ao livro, Claudia Alexandre passeia por um universo rico de detalhes da história do samba, que inclui perseguição, religiosidade, música, festa, negritude, resistência e luta permanente por liberdade. 

Segundo o site da editora, “[…] a partir desta obra – fruto da dissertação de mestrado em Ciência das Religiões da autora – o leitor perceberá o quanto as histórias dessas duas expressões culturais estão potentemente ligadas, uma vez que o carnaval negro não pode ser concebido sem a presença dos cultos ancestrais. Ainda que, ao longo do tempo, tenha ocorrido uma tentativa de apagamento de sua origem e, principalmente, da presença do negro e de suas religiões na indústria cultural e na história do samba e das escolas de samba, Claudia busca resgatar uma forma ancestral de perceber o mundo e religar esses universos ao ambiente acadêmico, revisitando acervos das experiências negro-africanas em diáspora e buscando caminhos para (re)escrever a História do Brasil.

Claudia Alexandre é jornalista, apresentadora, locutora, comentarista e pesquisadora. É também autora de outros dois livros, “Na fé de Vivaldo de Logunedé: um pouco do Candomblé na Baixada Santista” (Secult Santos) e “Vai-Vai: orgulho da Saracura”. 

O livro “Orixás no terreiro sagrado do samba: Exu & Ogum no Candomblé da Vai-Vai”, publicado pelo selo Fundamentos de Axé, da editora Aruanda, está disponível nas principais livrarias em versão digital e impressa. 

Meu nome é Maalum, de Eduardo Lurnel e Magna Domingues

Eu que estava procurando outra publicação para indicar junto com o livro de Claudia Alexandre, fui presenteada com Maalum, que nasce ao som de uma batucada.

“Parecia um bateria de escola samba, mas eram as batidas dos corações da mamãe, do papai, do vovô e da vovó que embalaram os primeiros minutos de vida de uma linda menina”.

Geralmente, sugiro livros infantis juntos, mas, assim que terminei de ler o livro de Claudia Alexandre, resolvi pegar algumas publicações infantis. O livro de Eduardo Lurnel e Magna Domingues com ilustrações Fabio Mota foi direto no meu coração. 

Maalum é uma menininha negra, doce, linda e inteligente, que, assim como muitas outras menininhas, descobriu o racismo nos primeiros dias de aula. A experiência foi tão severa que Maalum entristeceu. 

Com o apoio da família e a proteção de seus ancestrais, Maalum começa a enfrentar os desafios da vida. Quando acessa informações fundamentais que a fazem entender a origem de seu nome, tudo muda. Ela se empodera e ensina aos seus coleguinhas de turma que o nome dela dignifica ‘especial’ e que é de origem Suaíli. De menina entristecida, ela passa a ser descrita como liderança.

Publicado em 2021 pela editora Baú Encantado, Maalum é um obra de literatura infantil dedicada a Maalum, Inácio e Akeem, que segundo os autores, são as crianças que inspiram suas criações.

Magna Domingues é psicóloga, professora de sala de leitura e contadora de histórias. Fundadora dos projetos Baú Encantado e do Clube do livro Preta, ambos com foco no reconhecimento e na valorização das narrativas negras, buscam contribuir na luta por uma educação e sociedade antirracista.

 Eduardo Lurnel é bacharel em cinema e produtor audiovisual. Fez sua primeira aventura no mundo da literatura infantil como autor deste livro.

Super Black, de Renata Oliveira e Tatiane Santos

Como uma coisa puxa a outra e discutir representatividade é fundamental para o desenvolvimento das crianças – ainda na trilhas dos livros infantis, decidi dar continuidade às indicações com o livro Super Black, também publicado neste ano de 2021, por Renata Oliveira e Tatiane Santos. 

O livro apresenta Lucas, um menino feliz e sorridente, criado em um ambiente afrocentrado. Por isso, ele se sente orgulhoso, inclusive pelo cabelo black power que faz questão de ostentar e que acaba dando nome ao seu personagem, o herói “Super Black”. 

Diante de um dilema real sobre baixa representatividade nos livros infantis, Lucas atua e garante que sua melhor amiga, Dandara, possa ter acesso, conhecer e se reconhecer em um livro que apresenta uma princesa negra. 

A mobilização de Lucas começa quando ele percebe que Dandara está triste por não se enxergar nos livros que lê. Ele então mobiliza a professora e, juntos, mudam o rumo da história.

O livro, publicado pela Editora Clube da Cultura, traz ilustrações de Pamella Paixão e passa um recado nítido sobre a importância da representatividade e a valorização e respeito às diferenças. 

para comprar, basta entrar em contato via o perfil @superblack.oficial no Instagram.

Renata Oliveira é pedagoga e atua com educação infantil na rede pública de ensino. É também idealizadora do perfil @todo_assunto voltado à educação, infância e práticas antirracistas.

Tatiane Santos também é pedagoga e realiza um trabalho de promoção da equidade e enfrentamento ao racismo no ambiente escolar. Usa o seu perfil, @pretinhaeducadora, para falar sobre empoderamento, educação infantil e enfrentamento ao racismo. Cultura

Mundo da Rua Podcast

Acompanhe também as sugestões de livros produzidos por pessoas negras, para pessoas negras e sobre pessoas negras, da nossa colunista Rachel Quintiliano, no podcast Mundo da Rua

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Jornalista, pós-graduada em comunicação e saúde, produtora de conteúdo, defensora dos direitos humanos e promotora da equidade de gênero e raça. Escreve sobre beleza, identidade, autoestima, livros e filmes. É também idealizadora do Mundo da Rua Podcast.

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