Raça Indica

Neste edição, a sugestão é o livro Tópicos do Senado, de Antônio Brás e o acervo especial Ruth de Souza. 

Tópicos do Senado: cronologia, de Antônio Brás

Registrar nossa passagem pelo mundo com nossas próprias palavras é um feito necessário, especialmente com as investidas de apagamento de nossas contribuições que são persistentes. Foi exatamente isso que pensei quando chegaram às minhas mãos dois livros do memorialista Antônio Brás. 

“Tópicos do Senado: cronologia”, publicado em 2006, pela editora O Lutador, apresenta um conjunto de acontecimentos do Senado Federal. No texto de apresentação do livro, o autor destaca que “[…] Algumas das leis’ não são cumpridas e provocam assim o que chamamos de imoral desigualdade social, intelectual e racial”. Ainda que o livro não tenha por objetivo pontuar a participação de parlamentares negros no Senado, deixa nítido que o autor está direcionando o olhar também para os feitos de todos aqueles que legislam e o efeito dessa ação e da aplicabilidade ou nao aplicabilidade da lei para a promoção da equidade ou aumento das desigualdades. 

Prova disso é o primeiro registro destacado do livro, do dia 06/06/1998, quando a Senadora Benedita da Silva discorre sobre o Dia Internacional Contra o Racismo. 

O livro apresenta mais de quinhentos fatos entre 1998 e 2005. Entre os registros, é possível, pela simples leitura do índice, identificar 29 menções diretas à raça, ao racismo, à discriminação, aos negros, às cotas e a outros temas correlatos. Boa parte desse enunciado se dá a partir do registro de parlamentares como Benedita da Silva e Paulo Paim. É possível compreender, a partir desses registros, por exemplo, os amplos debates acerca das ações afirmativas e sua maior expressão no Brasil: as cotas. 

A principal fonte de informação utilizada pelo autor foi o Jornal do Senado. O livro pode ser encontrado em sebos, inclusive virtuais. 

Ruth de Souza, Cultne.tv

E já que estamos falando da importância de registrar os acontecimentos, a segunda sugestão da semana é o especial, Ruth de Souza (1921-2019), disponível na plataforma Cultne.tv

São cinco episódios independentes, que registram depoimentos e fases da vida de Ruth de Souza. 

No primeiro deles, no marco do centenário da abolição da escravatura, Ruth de Souza fala sobre o negro na publicidade. Ela disse que visitou pessoalmente agências de publicidade e, conversando com diretores dessas empresas, perguntou os motivos da sub-representação de pessoas negras na publicidade. A resposta foi que os clientes não querem pessoas negras na publicidade. Ainda que muitas coisas já tenham mudado, o problema persiste, como já tinha alertado a atriz em 1988. 

Outro destaque é o episódio 4, que registra uma visita de dois empreendedores que têm a atriz como inspiração. O diálogo acontece na casa da atriz, que, na oportunidade, aproveitou para falar da biografia lançada naquele momento. 

Ruth de Souza está entre as mais importantes atrizes brasileiras. Participou do Teatro Experimental do Negro, estudou em Harvard e na Academia Nacional do Teatro Americano e, no Brasil, estrelou diversas peças e filmes. Foi a primeira atriz brasileira a ser indicada a um prêmio em um festival internacional de cinema (Festival de Veneza de 1954), pelo trabalho em Sinhá Moça. 

Segundo o site, “a plataforma Cultne foi criada em 2009, a partir dos acervos de Enúgbárijo Comunicações de Ras Adauto e Vik Birkbeck e CP – Cor da Pele Produções de Filó Filho e Carlos Medeiros. A produção conjunta dessas duas produtoras chegam a mais de duas mil horas de vídeo, envolvendo manifestações culturais, políticas e sociais da população negra no Rio de Janeiro. O objetivo principal era convergir todos os documentos audiovisuais disponíveis, de relevância cultural popular, em especial a afro-brasileira, de modo a refletir para a população como um todo a magnitude da rica diversidade de expressões artísticas e intelectuais do segmento afrodescendente, que hoje representa a ampla maioria do povo brasileiro. Atualmente, grande parte deste material inédito, assim como audiovisuais de outras fontes autorais relevantes, necessitam ser digitalizados, garantindo sua perpetuação e a distribuição em redes”. 

Mundo da Rua Podcast.

Acompanhe também as sugestões de livros produzidos por pessoas negras, para pessoas negras e sobre pessoas negras, da nossa colunista Rachel Quintiliano, no podcast Mundo da Rua. No último episódio ela fala do livro Balada de Amor ao Vento, de Paulina Chiziane. 

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Jornalista, pós-graduada em comunicação e saúde, produtora de conteúdo, defensora dos direitos humanos e promotora da equidade de gênero e raça. Escreve sobre beleza, identidade, autoestima, livros e filmes. É também idealizadora do Mundo da Rua Podcast.

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