Raça Indica

Cães, de Júlia Grilo 

Eu confesso que demorei um bom tempo para me conectar com o livro. Mas fui persistente e, do meio em diante, li de uma só vez. Ocasionalmente, levo algum tempo para entender a história que cada publicação pretende contar e esse foi o caso com “Cães”, de Júlia Grilo. Depois, percebi que estava buscando respostas rápidas para assuntos complexos que a autora insiste em escrever com detalhes.

Como um personagem tão simples pode render tamanha complexidade? Como uma cadelinha vira-lata, preta como café, pode mexer com as nossas convicções mais nítidas sobre a humanidade ou a falta dela? 

Ao narrar a história de Cafeína, ou simplesmente Café, uma cadelinha que deseja ser o mais humana possível, Júlia Grilo perturba a mente do leitor ao narrar as atitudes e os pensamentos da cadela, desde a tenra infância até a senioridade. 

As descobertas e tropeços de Cafeína acontecem ao mesmo tempo que a personagem coadjuvante da história, que tem o papel de narrar em primeira pessoa tudo o que acontece, também cresce e questiona o quanto de animal existe nela e o quanto de humano existe na cadelinha. 

Em determinado momento do livro, a humanidade de Cafeína é comprovada e essa constatação passa pela possibilidade de liberdade. Ela se entende humana quando consegue fugir, ainda que ao final da história abra mão disso e retorne ao cativeiro, lugar que ela, obviamente muito mais esperta e “vivida”, ressignifica. 

Essas reflexões estão presentes em toda a obra, de 154 páginas, publicada pela editora Penalux, neste ano de 2021. Assuntos complexos como maternidade, racismo, desejo, sexo, violência, relacionamento intrafamiliar e muitos outros são discutidos, entre um e outro abanar de rabo. 

Segundo a sinopse, “[…] o que diferencia o homem dos outros animais? A chegada de um novo cão a sua casa leva uma menina a questionar se havia nos bichos algo além do que o imaginado pelos adultos. Encarando a humanidade como uma ficção, esse romance passeia pelos ecos coloniais que marcam o traçado entre o litoral e o recôncavo brasileiros e destrincha os pilares que nos constituem como povo. Em “Cães”, as definições se dão pela diferença: para descobrir o que é humano, a autora busca primeiro pensar naquilo que não é. “Cães” é um romance sobre limiares, sobre o que nos une e o que nos separa, sobre a distância que há, enfim, entre os homens e os bichos (o homem é ou não é bicho?), os homens e as mulheres (as mulheres também compõem o que se chama de homem?), e, com uma linguagem densa e fluida, a narrativa apresenta o fio cultural que corre como uma herança repassada de geração a geração”.

Mundo da Rua Podcast

Acompanhe também as sugestões de livros produzidos por pessoas negras, para pessoas negras e sobre pessoas negras, da nossa colunista Rachel Quintiliano, no podcast Mundo da Rua. No último episódio ela fala do livro, “As palavras de Martin Luther King”. 

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Jornalista, pós-graduada em comunicação e saúde, produtora de conteúdo, defensora dos direitos humanos e promotora da equidade de gênero e raça. Escreve sobre beleza, identidade, autoestima, livros e filmes. É também idealizadora do Mundo da Rua Podcast.

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