Raça Indica: 5 livros para crianças sobre identidade e autoestima

Heróis, princesas, meninas, meninos, personagens encantados e muito mais. Os livros de literatura negra para crianças são recheados de histórias para encantar, valorizar e até mesmo “curar” e empoderar crianças negras para sobreviver, crescer e enfrentar o racismo. 

1. Herói: o menino mais poderoso do mundo, de Régis Rocha e Aretha Ferreira

Herói, ou melhor, Hakim é destemido, inteligente e obviamente faz tudo para ajudar o outro. No quadrinho de 2017, lançado pela Afrodinamic, editora especializada neste gênero, Régis Rocha e Aretha Ferreira escreveram e ilustraram uma aventura que ensina sobre generosidade e posicionamento.

Logo nas primeiras linhas, dão o recado: “aproxime-se, não vacile, nem fique em cima do muro!”. 

Herói se envolve em uma pequena e emocionante aventura para devolver um objeto de grande estima para uma garotinha – o turbante de sua Abayomi. Mais do que isso, Herói começa uma jornada para mostrar para aquele que poderia ser seu inimigo que as pessoas são diferentes, têm seus próprios valores e que o respeito é fundamental. 

Assim como a maioria dos super-heróis, Hakim não anda sozinho. Ele faz parte de uma família que inclui: Vitorioso, o valoroso paladino; Baby, a Maravilha Mirim; e a audaciosa e frenética Faísca. 

Abayomi é uma boneca confeccionada de retalhos de pano. Segundo os autores dos quadrinhos, este tipo de boneca surgiu nos porões dos navios de tráfico de pessoas escravizadas e representa um amuleto de esperança.

2. Meus Contos Africanos, seleção de Nelson Mandela

Lançado em 2009, em português, pela editora Martins Fontes, com tradução de Luciana Garcia, o livro com os contos preferidos do líder sul-africano, Nelson Mandela (1918-2013), traz 32 histórias cheias de encantamento para ler para crianças e também adultos. 

Antes mesmo do sumário, a obra apresenta um mapa do continente africano e, com bandeirinhas, destaca a possível origem de cada conto. Contudo, deixa nítido que é apenas uma referência e não uma verdade comprovada. 

No prefácio, Nelson Mandela alerta “que a maior parte das histórias sofreu diversas metamorfoses ao longo dos séculos. Elas foram floreando e às vezes, de um povo ou grupo étnico para outro, transmitidas com imperfeições e falhas  […] porque uma história é uma história e você pode contá-la como sua imaginação, sua essência e seu ambiente determinam; e se sua história criar asas e passar a pertencer a outras pessoas, talvez você não consiga trazê-la de volta. Um dia ela retornará a você, enriquecida por novos detalhes e com uma nova voz”.   

Neste trecho, Mandela, com generosidade, dá a permissão para que cada pessoa que leia o livro e conte as histórias possa fazer isso com propriedade, criatividade e com sua própria voz, em um exercício de escuta, de fala,  de modo que elas sigam sendo lidas e encantando crianças em qualquer tempo e por muitos mais séculos. 

Vale a pena ler e contar todas as histórias do livro, mas destaco uma em especial: “A aranha e os corvos”. O conto, originário da Nigéria e conhecido localmente como Kwaku Anansi, apresenta a história de uma aranha bem esperta, que trapaceia o tempo inteiro, inclusive se passando por quem não é, e contando com a generosidade de outros animais para aplicar golpes perversos. Diferente do que estamos acostumados aqui no Ocidente, nem sempre os contos terminam com lições de moral, com o certo e o errado. Fica, portanto, a cargo do contador/a da história e das próprias crianças, que provavelmente farão uma série de perguntas , qual foi o fim da aranha. 

3. Aimée e a coroa que não conseguia ver, de Bruna Cristina 

Publicado em 2020 pela editora Clube da Leitura e com ilustrações de Gabrielle Moreira, o livro infantil de Bruna Cristina conta a história de Aimée, criança que sonha em ser uma princesa. 

O desejo da menininha é atravessado por uma série de preconceitos e ela quase desiste de se tornar uma princesa de verdade. Até que encontra sua mais velha, sua ancestral em um sonho e entende que aquilo, que para muitos não é aceitável por causa do racismo, é exatamente o que a transforma em princesa. 

Trata-se de uma história afrocentrada emocionante sobre beleza, identidade, autoestima e escuta aos mais velhos. 

Ela dedica o livro ao seu filho e a todas as crianças pretas na esperança que a história “ possa tocar o coração de cada leitor e que todos possam perceber que somos lindas sim e somos descendentes de Reis e Rainhas”. 

Conforme diz a contracapa do livro, Bruna Cristina é professora de educação infantil, pedagoga e pós-graduada em educação infantil e idealizadora do projeto Pro Bruna Indica, focado em indicações literárias com protagonismo negro. Gabrielle Moreira é também pedagoga, ilustradora e idealizadora do projeto @gabinarte. 

O livro pode ser adquirido via link no Instagram da autora que te leva a um bate papo direto com ela: intagram.com/bruna_crisstina 

4. Amoras, de Emicida 

Lançado em 2018 pela Companhia das Letrinhas, com ilustrações de Aldo Fabrini, o livro do artista, rapper, produtor, estilista e intelectual negro, Emicida,  é dedicado a Estela, nas palavras dele: “a primeira pessoa que vi salvar o mundo”. O livro é baseado na música homônima do artista. 

Emicida fala sobre beleza, identidade, autoestima, resiliência e resistência. De maneira simples e envolvente, ele ensina e aprende em um esforço de se conectar com os olhos e os pensamentos de uma criança negra. 

Fala sobre religião, sobre a conexão com Deus em suas diversas denominações e apresentações. Em uma conexão com a natureza, apresenta e dá significado para a “Amora” e para as crianças negras. “…quanto mais escuras, mais doces. Pode acreditar”. 

Na contracapa do livro, o poeta Sérgio Vaz atesta: “Um livro que rega as crianças com o olhar cristalino de quem sonha plantar primaveras para colher o fruto doce da humanidade”. 

5. Meu nome é Maalum, de Eduardo Lurnel e Magna Domingues

“Parecia um bateria de escola samba, mas eram as batidas dos corações da mamãe, do papai, do vovô e da vovó que embalaram os primeiros minutos de vida de uma linda menina”.

O livro de Eduardo Lurnel e Magna Domingues com ilustrações Fabio Mota foi direto no meu coração. 

Maalum é uma menininha negra, doce, linda e inteligente, que, assim como muitas outras menininhas, descobriu o racismo nos primeiros dias de aula. A experiência foi tão severa que Maalum entristeceu. 

Com o apoio da família e a proteção de seus ancestrais, Maalum começa a enfrentar os desafios da vida. Quando acessa informações fundamentais que a fazem entender a origem de seu nome, tudo muda. Ela se empodera e ensina aos seus coleguinhas de turma que o nome dela dignifica ‘especial’ e que é de origem Suaíli. De menina entristecida, ela passa a ser descrita como liderança.

Publicado em 2021 pela editora Baú Encantado, Maalum é um obra de literatura infantil dedicada a Maalum, Inácio e Akeem, que segundo os autores, são as crianças que inspiram suas criações.

Magna Domingues é psicóloga, professora de sala de leitura e contadora de histórias. Fundadora dos projetos Baú Encantado e do Clube do livro Preta, ambos com foco no reconhecimento e na valorização das narrativas negras, buscam contribuir na luta por uma educação e sociedade antirracista.

Eduardo Lurnel é bacharel em cinema e produtor audiovisual. Fez sua primeira aventura no mundo da literatura infantil como autor deste livro.

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Jornalista, pós-graduada em comunicação e saúde, produtora de conteúdo, defensora dos direitos humanos e promotora da equidade de gênero e raça. Escreve sobre beleza, identidade, autoestima, livros e filmes. É também idealizadora do Mundo da Rua Podcast.

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