Racionais Mc’s protege pretos e pobres da Covid-19, ao exigir vacina

Mano Brown, do Racionais Mc’s disse que vacinas salvam vidas e que para ir aos shows dele e/ou do grupo, seria necessário apresentar comprovante de vacinação contra a Covid-19

Faz poucos dias que Tedros Adhanom Ghebreyesus, diretor-geral da Organização Mundial da Saúde (OMS), disse que “temos as ferramentas para colocar fim à pandemia” de Covid-19, que, neste próximo mês de março, completa dois anos. 

Conter a disseminação do vírus depende da implementação de medidas que inibam a aglomeração, promovam o uso de máscara, ampliem a testagem e rastreamento de casos e disseminem amplamente a vacina. 

Entretanto, ao redor do mundo e inclusive no Brasil, essas ferramentas parecem que não estão sendo usadas de acordo com a necessidade imposta pela emergência. As aglomerações correm à solta, as máscaras passam a maior parte do tempo no queixo e não tampando o nariz e a boca e, as vacinas, ou não estão disponíveis ou o negacionismo tem impedido que elas alcancem, de forma universal e equitativa, todas as pessoas. 

Exatamente por isso que o anúncio do Mano Brown, do grupo de rap, Racionais Mc’s, em uma rede social dizendo que, para assistir aos shows dele e do grupo seria necessário apresentar comprovante de vacinação contra a Covid-19, causou tanto alvoroço na internet. Não deveria. A postura do rapper é, no mínimo, coerente quando olhamos para o cenário atual. É também um ato antirracista, quando observamos como a pandemia atingiu de forma mais violenta os mais pobres e os pretos. 

Os pesquisadores do GT Racismo da Associação Brasileira de Saúde Coletiva (Abrasco), ainda no começo da pandemia, se perguntavam sobre os motivos da pandemia ser mais mortal para a população negra. 

Não, o vírus não é racista, mas a resposta à pandemia pode ser. Segundo o artigo publicado por Edna Araújo e Kia Caldwell, o “vírus está afetando desproporcionalmente os negros, resultado do racismo estrutural que remonta à escravidão”. No mesmo documento, elas acrescentam ainda que o “surto de coronavírus no Brasil se originou em bairros ricos cujos moradores haviam viajado para a Europa, mas a doença agora está se espalhando mais rapidamente para bairros pobres das periferias urbanas, densos e há muito negligenciados pelo Estado”. 

Devido à  dificuldade da coleta de informações sobre raça/cor nos protocolos de saúde e também do apagão de dados que atingiu o país, fica cada vez mais difícil saber efetivamente com que gravidade a Covid-19 tem atingido os diferentes grupos etnico-raciais presentes no país. 

Alguns estudos como o realizado pela CNN, em junho de 2020, com base nos boletins epidemiológicos do Ministério da Saúde, demonstram que morrem 40% mais negros que brancos pelo Coronavírus no Brasil. 

Ao exigir comprovante de vacina para que o público compareça aos shows do Racionais Mc’s, neste ano, o maior grupo de rap do país está colocando em exercício o quinto elemento do Hip-Hop, o “Conhecimento“, e protegendo pretos e pobres da Covid-19.

Vacinação da Covid mostra racismo estrutural no sistema de saúde, diz pesquisa

A campanha de vacinação contra a Covid-19 preteriu a população negra, mesmo quando incluída em critérios de grupos prioritários, e evidenciou o racismo estrutural no sistema de saúde. O alerta é do estudo “Priorização territorial na vacinação da população com menos de 60 anos”, realizado pelo Instituto Pólis na cidade de São Paulo. Leia mais.

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Jornalista, pós-graduada em comunicação e saúde, produtora de conteúdo, defensora dos direitos humanos e promotora da equidade de gênero e raça. Escreve sobre beleza, identidade, autoestima, livros e filmes. É também idealizadora do Mundo da Rua Podcast.

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