Advogado Jeff Amadeus explica a importância de provas, estratégias legais e políticas antirracistas dentro das corporações
“Se vivemos em um país estruturado no racismo, todas as instituições, num primeiro momento, estarão contra nós. Por isso, a estratégia é o primeiro passo”, afirma o advogado Jeff Amadeus, especialista em direitos das minorias, em entrevista exclusiva à edição!ao 237 da RAÇA. Para ele, a orientação mais importante antes de qualquer denúncia é reunir provas — como áudios, vídeos e testemunhas. “Sem provas, o judiciário, que também carrega o racismo institucional, pode inverter a situação e favorecer o agressor”, alerta.
O racismo cometido por superiores hierárquicos, segundo Amadeus, exige ainda mais cautela. Muitas vezes, as ofensas ocorrem de forma continuada e disfarçada, como no chamado “racismo recreativo” — termo criado pelo jurista Adilson Moreira para designar piadas e comentários racistas naturalizados. “Essas práticas são comuns e perigosas. O ideal é gravar, anotar datas, procurar testemunhas. A impunidade tem sido a regra, não a exceção”, explica.
Para casos de racismo velado, como olhares, exclusões ou comentários maliciosos, a luta por justiça se torna mais desafiadora. “O Judiciário ainda considera piadas racistas como ‘sem dolo’, ou seja, sem intenção de ferir, o que é absurdo. Por isso, a informação é tão importante — para conscientizar a população e transformar esse entendimento institucional”, diz o advogado.
Amadeus também aponta a responsabilidade das empresas diante dessas situações. “Mesmo que a corporação não tenha uma cultura racista, se ela não age diante de práticas discriminatórias, torna-se cúmplice. É preciso implementar o que chamamos de compliance antidiscriminatório”, defende.
O especialista argumenta que o racismo no ambiente de trabalho não deve ser tratado como um problema apenas individual. Ele cobra que as empresas ofereçam apoio psicológico e jurídico às vítimas e que estejam preparadas para acolher diferentes reações.
Quando o racismo não é resolvido internamente, a vítima deve registrar um boletim de ocorrência e procurar apoio jurídico. “Racismo é crime. E como tal deve ser tratado. Não há devolução para o que foi perdido, mas é possível buscar compensações e justiça”, conclui Jeff Amadeus.