Representatividade importa

Mitos, heróis e a construção da identidade e da autoestima

Por: Rachel Quintiliano

[TEXTO DA EDIÇÃO 204/2018]

Ao longo dos anos, um extenso trabalho para o reconhecimento de Zumbi dos Palmares como uma grande liderança e modelo de resistência entrou em curso no Brasil. Um marco significativo desse processo, foi a primeira Marcha Zumbi dos Palmares, realizada em 1995, em Brasília. Momento em que o movimento social negro dava grande visibilidade para uma longa e ainda necessária campanha por direitos.

Eu tinha quase 18 anos nessa época e, desse momento em diante, passei a ler e ouvir com mais frequência o nome de Zumbi dos Palmares e no meu imaginário, um herói foi sendo construído, como um referencial de resistência, ousadia e estratégia. Zumbi dos Palmares, conforme conta nossa história, lutou bravamente na Serra da Barriga por liberdade. Virou herói e, com isso, passou à categoria de exemplo. 

Ainda que o reconhecimento formal de sua existência e importância, por parte do Estado Brasileiro, só tenha ocorrido mais de trezentos anos após sua morte, quando foi publicada a Lei Federal 12.519/2011 que institui o Dia Nacional de Zumbi dos Palmares e da Consciência Negra, a ser comemorado anualmente, no dia 20 de novembro, a efervescência em torno do nome dele, no início dos anos de 1990 fizeram toda a diferença na construção da minha autoestima.

O impacto sobre o entendimento de que tivemos um herói negro foi tão grande para mim

Arrisco dizer que só senti algo similar em outros dois momentos da minha vida e, curiosamente quando assisti dois filmes cujos heróis eram homens negros. 

O primeiro foi Besouro, uma ficção cheia de efeitos especiais, lançada em 2009 que faz uma leitura sobre a vida do capoeirista baiano, Besouro Mangangá, cuja história foi marcada por resistência, no pós abolição no recôncavo baiano. O segundo momento ocorreu no início deste ano, quando fui ao cinema para assistir o filme Pantera Negra, ainda que já tivesse lido a homônima revista em quadrinho do  herói de Wakanda.

Guardadas as diferentes proporções, reforço a ideia de que representatividade importa e que referenciais positivos corroboram para a construção de identidade e autoestima,

especialmente em países e realidades ainda tão marcadas pela violação de direitos e pela complexidade e sofisticação do racismo.

Por isso, não poupo esforços para demonstrar que negros e negras em diferentes posições, profissões, com ou sem visibilidade na mídia, podem ser referenciais de beleza, identidade e autoestima.

Me lembro, de mais de uma vez, recortar em revistas, fotos de pessoas negras e fazer colagens para meus sobrinhos e afilhados, para que eles pudessem “se espelhar” e sobretudo, entender que negros e negras estão em movimento, em todos os espaços desempenhando papéis importantes na sociedade e que quando se posicionam contra as desigualdades e enfrentam o racismo, estão lutando pelo bem maior e comum para todos os brasileiros. Viva Zumbi dos Palmares! Vamos celebrar o Dia da Consciência Negra! Devemos comemorar a possibilidade de construção de referenciais de heroísmo e autoestima negra.

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