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Série adolescência da netflix

Série ‘Adolescência’: juventude, raiva e raça nos abismos da masculinidade

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Fernanda Alcântara

Editora assistente do Portal Raça. Jornalista e mestre em Comunicação pela Universidade de São Paulo (USP). Pesquisadora em quadrinhos, venceu o Prêmio HQ MIX (2012) na categoria melhor TCC. Por quatro anos foi editora-chefe da Revista Raça e desde 2014 realiza palestras sobre temas como comunicação, diversidade e igualdade racial e de gênero. Em 2016 foi convidada pelo Consulado Norte-Americano a integrar o Social Inclusion in USA: International Visitor Leadership Program. Deste 2019, atua com comunicação popular na frente de texto no Movimento dos Trabalhadores Sem Terra (MST).

A série “Adolescência”, criada por Stephen Graham e Jack Thorne, se tornou um fenômeno instantâneo na Netflix, alcançando 66,3 milhões de visualizações em apenas 11 dias — um recorde para minisséries na plataforma. Milhares de análises, comentários e debates tem circulado, todos querendo uma fatia desta fama e um palpite na discussão sobre bullying, masculinidade tóxica e misoginia. 

Filmada inteiramente em plano-sequência (sem cortes), a história acompanha Jamie Miller (Owen Cooper), um adolescente de 13 anos cuja vida vira de cabeça para baixo quando é detido e acusado do assassinato de uma colega de escola. À medida que a investigação avança, a série explora também o ambiente tóxico que pode levar jovens a atos extremos — incluindo o assédio online, a solidão masculina e a violência entre adolescentes.

Ao observar os dados sobre estas manifestações, existe um padrão perturbador de que a maioria dos autores de “school shootings” (tiroteios em escolas) e participantes radicais da cultura incel são jovens brancos. Se adolescentes negros também enfrentam pressões da masculinidade tóxica, por que o impacto parece se manifestar de forma diferente?

Um dos caminhos para entender estes casos envolve a interseção entre raça, gênero e expectativas sociais que cada grupo enfrenta. A masculinidade tradicional que incels e redpills defendem exige dominação, sucesso sexual e controle — e, quando isso lhes é negado, a reação é a culpabilização das mulheres. Assim, eles se fecham em comunidades majoritariamente brancas, frequentemente expressando ódio contra mulheres, planejando ataques violentos e atraindo jovens que se sentem traídos pela promessa de superioridade masculina branca.

Assistindo a série, me veio a mente um caso recente aqui do Brasil, a morte de Pedro Henrique, estudante de 14 anos do Colégio Bandeirantes, que, mais do que “bullying”, era sistematicamente discriminado por ser negro, bolsista e homossexual. As provas de agressões verbais, físicas e cyberbullying contra Pedro enrique provam que o mesmo sofreu um processo de indução ao suicídio, que como ele, “eram apenas crianças”.

O que me move nesta observação é que a sociedade já aceita a discussão sobre o bullying, que pode afetar qualquer adolescente, mas dificilmente vemos ser levantado que o impacto do bullying conforme o contexto racial. Para muitos jovens negros, a violência escolar não é apenas sobre status social, mas também sobre racismo estrutural, enquanto, para alguns jovens brancos, a humilhação pode ser vivida como uma queda inaceitável na hierarquia social, levando a explosões de violência como forma de “restaurar” seu lugar.

Não se trata aqui de dizer que homens negros não sofrem (e/ou) exercem a masculinidade tóxica — sabemos muito bem que eles também enfrentam e reproduzem a violência, policiamento excessivo e a pressão social. A diferença está na forma como cada grupo lida com a frustração. Enquanto muitos jovens negros internalizam mecanismos de resistência, alguns brancos, acostumados a um lugar de dominância, veem a rejeição como uma afronta que justifica violência.

Em Adolescência, isso aparece de forma tangencial. Dos dois amigos de Jamie, o negro é quem tem maior insegurança sobre o que aconteceu. Ele tem medo das consequências e, consequentemente, foi aconselhado a “se calar”. Enquanto isso o branco, que chegou a fornecer a arma do crime, não entende e sequer conversou com os pais sobre o ocorrido. Há ainda outro personagem que também sofre bullying constante, mas, por ter um pai negro, parece que desenvolveu resiliência diante da rejeição, já que o racismo o preparou para a exclusão.

De nossa parte, o que podemos fazer é preparar as nossas crianças, e isso vale para todos os pais e mães. Se por um lado o futuro pode ser promissor dado às tecnologias que cada vez mais nos aproximam, há um submundo de redpills e incels apenas esperando uma brecha para nos matar. Não passamos ilesos diante desta guerra, que existe há anos e que promete ainda ceifar muitas vidas.

 

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