Oswaldo Faustino faz uma sinopse do filme "Animal" para abordar a necessidade de ação do movimento negro brasileiro. Confira

 

TEXTO: André Rezende | FOTO: Divulgação | Adaptação web: David Pereira

Escravizados seguem para o trabalho em fazendo americana | FOTO: Divulgação

Escravizados seguem para o trabalho em fazendo americana | FOTO: Divulgação

Recentemente, por meio de um filme norte-americano de ação, Animal (2005), de David J. Burke, com roteiro de David C. Johnson, tive mais uma oportunidade não só de rever um ator negro excepcional de meus tempos adolescentes, Jim Brown, como de tomar contato com um documento – há quem diga que é real e quem o negue – em que um fazendeiro ensina seus pares a dominar seus escravizados. Conhecido como “A Carta de Willy Linch”, o tal documento, que se utiliza de palavras simples e diretas, se baseia na tese maquiavélica do “dividir para governar”. Real ou não, a tal carta não poderia ser mais oportuna, tanto para este período do pós-lutas pelos Direitos Civis, dos EUA, quanto nesses tempos em que o movimento negro brasileiro se acomodou aos limites partidários, se tornou coadjuvante nas lutas pelas questões de gênero, de classes sociais e de tantas outras que valorizam muito mais nossas diferenças do que o que temos em comum.

É exatamente isso que o musculoso e truculento James Allen (Ving Rhames, também em interpretação impecável), conhecido por Animal, descobre na cadeia, onde cumpre pena por assalto a mão armada, ao tomar contato com o militante revolucionário dos anos 1960, Berwell (Jim Brown). Filmes sobre cadeias já vimos muitos, de guerra de gangues também, mas poucos se propõem a nos fazer pensar no porquê dessas disputas por um poder tão irreal quanto efêmero.

Como o pai é o principal espelho para o filho, Darius Allen (Terrence Howard) segue exatamente os passos de Animal. É o herdeiro da fama, da truculência, do apelido (animalzinho) e, enquanto o pai está na prisão, constrói seu próprio espaço de poder. Nas ruas, Darius não tem noção do que está ocorrendo por detrás das muralhas, onde o pai vive um processo de transformação interna. A começar pela leitura da biografia de Malcoln X, que recebe de Berwell e, depois, por receber do revolucionário uma cópia da carta de Willy Lynch, cujo nome teria inspirado a criação da palavra linchamento (em inglês, lynching, do verbo tolynch), como os incontáveis realizados principalmente no sul daquele país, penalizando aos afro-americanos suspeitos de transgredir as leis segregacionistas após a abolição da escravatura, em 1863.

Após a leitura dessa carta, o prisioneiro rejeita o apelido de Animal e assume seu nome James Allen (se adotasse um novo nome de origem africana ou muçulmana também seria uma excelente solução, como ocorreu com vários afro-americanos ao se conscientizar da necessidade de uma transformação da própria história e a de seu povo). E Dárius, novo “rei das ruas” nem imagina de qual será a grande herança que receberá de James e que ele a repassará a seu pequenino meio-irmão. Vale a pena descobrir assistindo ao filme Animal.
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