O dia 24 de janeiro de 2018 vai entrar para a História. Na cadeira de réu estará não um simples cidadão, mas sim, o ex-presidente da República Luiz Ignácio Lula da Silva, uma das maiores lideranças populares que o Brasil e a América Latina construíram no século XX.

Não cabe à revista RAÇA fazer juízo de valor ou entrar no jogo entre mortadelas e coxinhas, ou do bem contra o mal. Temos ciência que somos mesmo os 77% dos jovens que morrem todo ano neste país, representamos 60,4% dos desempregados, nosso salário é em média a metade do salário de um trabalhador branco e continuamos na base da pirâmide seja na educação ou na saúde, e somos ínfima minoria nos cargos decisivos desta nação de maioria negra, ou seja, nessa disputa continuamos sendo negros.

Por conta desse julgamento as tensões no país aumentaram de forma assombrosa, a intolerância se fez presente com todo vigor, os frágeis mecanismos democráticos, conquistados a duras penas, vêm sendo atropelados diariamente e a sociedade está extenuada de tanta insegurança. Ou seja, este é o jogo em que todos perdem seja em qual for o campo político em que se está jogando.

Mas não há como não refletir nesse dia histórico que independente dos equívocos que o governo Lula tenha cometido, foi nesse período que a população negra brasileira mais obteve avanços no pós-abolição. Cotas raciais nas universidades, serviço público e judiciário federal será sempre lembrado como legado desse período, assim com a aprovação da Lei nº 10.639 (lei que introduziu na grade curricular do ensino fundamental a obrigatoriedade do ensino da história da África e da Cultura Afro-Brasileira), reivindicação histórica do Movimento Negro brasileiro.

Ainda tem que se creditar a esse governo momento histórico em que o país estabeleceu, de forma digna, relações diplomáticas com a maioria dos países da África, após terminar oficialmente com a escravização dos africanos e seus descendentes em 1888. E foi o presidente brasileiro que mais visitou países africanos em toda sua história, fato que possibilitou a abertura de mais de 20 embaixadas africanas no Brasil e vice-versa.

A revista RAÇA acompanhou de perto todos esses fatos e estará também acompanhando o julgamento do ex-presidente da República com a mesma independência e credibilidade dessas mais de duas décadas de existência. Mas temos opinião e neste caso concordamos com o também ex-presidente Fernando Henrique Cardoso que recentemente declarou: “quem deveria julgar o ex-presidente Lula, é o povo”. Porque, seja qual for o resultado judicial, em última instância, o verdadeiro julgamento virá pela História.

Revista RAÇA

Comentários

Comentários