A revista Raça Brasil entrevistou a cônsul geral dos Estados Unidos da América. Veja trechos da entrevista

 

TEXTO: Maurício Pestana | FOTO: Najla Kubrusly | Adaptação web: David Pereira

Veja a entrevista com a cônsul dos EUA | FOTO: Najla Kubrusly

Veja a entrevista com a cônsul dos EUA | FOTO: Najla Kubrusly

Não é sempre que nos deparamos com uma mulher negra cônsul geral, responsável por todo um consulado, que envolve representações econômicas, políticas, cultura, educação, comunicação, entre outros. Isso não é tão difícil também desde que o país seja... os Estados Unidos da Ámerica.

A responsável pela façanha é Usha Pitts que ingressou no serviço diplomático em 1998 e acumulou uma respeitável trajetória na diplomacia norte-americana. Trabalhou em embaixadas de peso como Viena, Roma, Havana e Moscou. Nesses países, a diplomata atuou nas áreas consular e política e nas relações com organismos internacionais.

Também atuou no importante centro de Operações do Departamento de Estado em Washington D.C. Sua experiência na área política, econômica e social, entretanto, antecede ao trabalho no departamento de estado, pois Usha Pitts foi assistente de pesquisas no Banco Mundial.

Com formação acadêmica sólida essa profissional tem Mestrado em Desenvolvimento Político pela Universidade George Washington e Bacharelado em Desenvolvimento da América Latina pela Universidade de Massachussetts, onde nasceu.

No Brasil, a quase dois anos divide o trabalho com a tarefa de educar seus dois filhos, Maxim de 12 anos e Cassia de 9.

Nessa entrevista exclusiva à Raça Brasil bastante descontraída, (algo não muitocomum para os cônsules em gerais) Usha Pitts fala da carreira de diplomata e, é claro, sobre o tema principal da entrevista, as relações raciais no Brasil e nos Estados Unidos. Acompanhe trechos da entrevista com a cônsul dos EUA.

Quando chegou ao Brasil a senhora declarou que um de seus projetos era de encorajar mais os norte-americanos a vir para cá e descobrir as belezas e oportunidades daqui. Como está esse projeto? 

Não era um projeto específico, mas sim um desejo de ampliar a consciência nos Estados Unidos sobre o que é o Brasil, sobre a diversidade deste pais, porque muitos norte-americanos só ouvem falar no Rio de Janeiro, talvez sobre São Paulo. Mas eu, como cônsul dos Estados Unidos no Nordeste, vi que é outra coisa, um outro mundo. No nordeste a cultura é muito diferente. A vida e o dia-a-dia são diferentes das grandes cidades do sul e do sudeste. Enfim, eu quero demonstrar que Brasil não é só Rio de Janeiro.

E como a senhora está fazendo isso?

Apoiando e trabalhando com os estados do nordeste, o secretario de turismo do nordeste, com férias de turismo, mandando pessoas aos Estados Unidos para falar sobre o nordeste e também para atingir os norte-americanos que já estavam viajando ao Brasil, especialmente para o Recife.

Qual a sua percepção sobre o Brasil? Este é um país que, em alguns aspectos, tem problemas muito semelhantes aos Estados Unidos, sobretudo na questão racial?

Antes de qualquer coisa eu preciso dizer que o Brasil é uma Republica Democrática muito grande como os Estados Unidos, então se você visita Nova York não é o mesmo que visitar Huston, todas as cidades no interior são bem diferente das cidades grandes nos Estados Unidos e no Brasil acontece o mesmo. Eu gosto muito do interior do seu país, quando falo isso refiro-me ao interior do nordeste onde vivo o sertão, a vida matuta, a história e a cultura do nordeste, mas eu reconheço que a vida lá não se compara com a vida no Rio de Janeiro ou São Paulo. Não é a mesma coisa e nesse aspecto começam as diferenças. Falando da sociedade dos Estados Unidos, sim, temos muitos dos mesmos problemas. Eu sou afro-americana, tenho uma carreira de quinze anos como diplomata e tenho visto coisas desagradáveis sendo uma mulher profissional nos Estados Unidos, e algumas destas coisas também se mostram aqui no Brasil, porque são poucas as mulheres profissionais e as mulheres afro-brasileiras são menos ainda em cargos de direção. E isso é igual nos Estados Unidos onde estamos lutando contra os mesmos problemas, porque é muito difícil para uma mulher profissional ter filhos, ter uma carreira e ter as mesmas oportunidades que um profissional mais tradicional. É muito mais difícil.

A senhora disse que foi exatamente na escola de seus filhos, logo que chegou ao Brasil, que teve a primeira percepção da questão racial no país.

É um pouco difícil de falar sobre isso por questões sentimentais, porém não só os afro-americanos mas os norte-americanos em geral temos uma visão do Brasil de como é com a mistura das raças e toda a imagem de que todos se dão bem, de que não há muitos dos problemas que nós temos como o racismo, achamos que vocês apreciam todas as cores e que todos se sentem cômodos aqui, e é essa a imagem que temos do Brasil. Mas preciso dizer que essa imagem não é aplicável a todas as partes do país. Então, por exemplo, eu como afro-americana, muitas vezes vou a reuniões onde eu sou a única pessoa negra, pode ser com vinte ou trinta pessoas e eu sou a única. Muitas vezes também eu sou a única mulher, e issotambém é um problema. Na escola também porque minhas crianças foram a uma escola que custava muito dinheiro então as salas estavam cheias de meninos mais brancos que meus filhos. Eu pensei que no Brasil as salas tivessem uma mistura maior de cores, e não foi assim. É muito óbvio que os privilégios educacionais que os brancos têm são muito grandes, assim como os de habitação. Eles têm muitas vantagens e isso é algo institucional e não é algo de que se fale abertamente. Pelo menos no nordeste, onde moro a quase dois anos este não éum tópico de conversação, e como afro-americana as questões de raça e de divisões raciais é um tópico de conversação como qualquer outro em meu país. E está muito presente na mente das pessoas e na sociedade, mas aqui e especificamente no nordeste, onde moro, eu sinto que não é um tópico que as pessoas gostem de falar isso para mim é emblematico.

 

 

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