Zezé Motta e o legado de Xica da Silva

Ao completar 40 anos, o longa ainda é tema para debates interessantes sobre a história do cinema brasileiro e sobre o papel de mulheres negras nas telas.

Zezé Motta é uma das principais atrizes brasileiras, aos 76 anos, ela é referência para as novas gerações e, principalmente, para as mulheres negras. Sua história inspira, a beleza da atriz, musa de canções intensas, renova-se a cada ano e a luta se torna incessante para a mulher que não desiste dos seus sonhos e enfrenta a vida. 

Em 1976, Zezé estreou o filme Xica da Silva, dirigido por Cacá Diegues. O longa trouxe notoriedade para a atriz, mas também gerou intensos debates sobre a sexualização do corpo negro e sobre racismo. Quarenta anos depois da estreia, conversamos com a atriz sobre esse momento de sua carreira, ouvimos seu relato sobre como enfrentou o preconceito dos telespectadores da novela Corpo a Corpo, na qual interpretou a personagem Sônia, par romântico de Marcos Paulo. Zezé também compartilhou conosco as preocupações diante da pandemia e suas esperanças para depois desse período.

Revista Raça: Como você está vendo esse momento?

Zezé Motta: Olha, Pestana, posso dizer que 2020 foi o ano mais difícil da minha vida, porque perdi minha mãezinha logo no início da pandemia, ela foi internada por um problema cardíaco com 95 anos, mas o óbito se deu porque ela adquiriu Covid-19 no hospital. Foi um ano bem difícil, perdi muitos amigos, meu irmão teve Covid e felizmente escapou, eu tive assintomática, foi uma sorte porque realmente eu não senti nada e fiquei sabendo porque eu fui convidada para fazer uma campanha para a Avon e mandaram um laboratório em casa, na véspera, e me informaram que eu não poderia fazer a campanha por conta disso. Eu não senti nada, mas todas as noites verificava se eu não estava com febre, respirava fundo para ver se eu não estava com falta de ar, foi uma tortura.

Raça: Quanto tempo de carreira você está celebrando neste ano?

Zezé Motta: 54, mais de meio século.

Como você vê a situação atual das mulheres e artistas negros? As coisas estão melhorando? 

Como são 54 anos de carreira e 40 de militância, eu seria injusta em dizer que de 40 anos para cá não houve uma mudança, tímida, mas houve em todos os sentidos. O tipo de produto que o negro já participa da divulgação e a frequência também. Eu sou de um tempo em que o negro só divulgava produto de limpeza, os personagens eram sempre subalternos, sou de um tempo em que se eu estava em uma novela não tinha espaço para Neuza Borges porque somos contemporâneas, se a Chica Xavier estivesse não tinha espaço para Ruth de Souza, se a Léa Garcia estivesse não tinha espaço para alguma contemporânea dela, enfim, era assim, a cada trabalho que eu fazia eu falava: meu Deus cadê todo mundo? E as coisas realmente mudaram, a gente liga a TV e já vemos negros um pouco presentes em lugares diversos.

Raça: Quando será que a gente vai conseguir se livrar dessa violência?

ZM: Eu lamento dizer que eu não sou nem um pouco otimista nesse sentido, até porque eu como quase todo mundo, peregrinei muito em busca da verdade, o que você imaginar eu já frequentei, fui criada no colégio Kardecista, depois eu cismei que eu tinha que fazer primeira comunhão porque todas as minhas amigas tinham feito e eu era a única que não tinha feito por ter sido criada em um colégio espírita, depois parei no meio, desanimei não sei por quê, depois minha mãe era umbandista e eu frequentei a Umbanda, depois ela mudou para testemunha de Jeová e eu fui também, batizei-me com 16 anos como testemunha de Jeová, porque eu acompanhava minha mãe; então, eu achava bonita aquela história do Batismo, depois eu me afastei porque foi uma coisa de momento, depois eu frequentei o Santo Daime. Como eu fiz essa busca intensa, eu li a bíblia de cabo a rabo, quando eu fui testemunha de Jeová. Segundo a bíblia, de tempos em tempos o mundo dá umas reviravoltas, acabar não acaba, mas dá uma revirada, teve lá a arca de Noé, agora a bíblia anuncia o apocalipse e agora essa pandemia que nós estamos vivendo, tá muito previsto que no final dos tempos aconteceriam muitas coisas, mas enfim, enquanto estamos aqui, vamos vivendo.

Raça: Em 2021, Xica da Silva completa 40 anos, certo?

ZM: Ela ficou mesmo no imaginário masculino e isso me trouxe alguns problemas, primeiro porque as pessoas misturam a pessoa com a personagem e segundo porque eu vivi o período do sexo, drogas erock and roll, graças a Deus eu não fui fundo nas drogas, mas era aquela coisa muito livre. Então, meus parceiros, no meio do caminho eu acabei me casando, fiquei cinco anos casada, mas até me casar a expectativa de todos os parceiros era transar com a Xica da Silva. Já ouvi coisas do tipo: “quando um filme se torna realidade” ou “meus amigos não vão acreditar que eu transei com a Xica”. Lembro-me que eu tinha medo de viajar de avião no início, então quem estivesse do meu lado eu pedia para me dar a mão e uma das vezes era um rapaz jovem, e aí eu: “pelo amor de Deus me dá a mão porque eu tenho medo”; o avião estava indo para BH (Belo Horizonte), balançando, e isso para divulgar o filme e o rapaz dizendo: “meus amigos não vão acreditar que eu passei mais de uma hora de mãos dadas com a Xica da Silva”. Era nesse nível, e aí foi um problema para mim porque como havia uma expectativa muito grande, na performance da Xica, então eu fazia toda uma mise-en-scène, a atriz entrava em cena, agora o meu prazer mesmo ficava todo em segundo plano, não rolava.

Raça: Foi um marco para o cinema brasileiro…

ZM: Fazer Xica da Silva foi um divisor de águas na minha vida, eu conhecia três países que eu tinha ido com o teatro Arena, do Augusto Boal, já tinha viajado com ele para os EUA, México e Peru, fazendo Arena Conta Zumbi e Arena Conta Bolívar; depois de Xica da Silva, hoje conheço 16 países e esse que eu conheci com o Boal eu tive que voltar para divulgar o filme.

Raça: Você acha que aconteceu uma mudança no olhar para nós negros após Xica da Silva?

ZM: É verdade! Eu me lembro que quando eu fiz o teste para Xica da Silva, saiu numa revista o seguinte: “Quem passou no teste para Xica da Silva foi uma atriz feia, porém exuberante, Zezé Motta” e eu olhava para a foto, uma foto do Antônio Guerreiro, com a produção de Carlos Prieto que não deixava por menos, e eu falava: “mas eu estou linda aqui e tão dizendo que eu sou feia”, quer dizer, é porque a referência de beleza era europeia total, tinha que ser loira de olhos azuis, de preferência.

Raça: Essa foi uma mudança de paradigma…

ZM: Na época, quando eu recebi o rótulo de símbolo sexual, que aliás foi junto com a Sônia Braga com Dona Flor e seus Dois Maridos, algumas pessoas do movimento negro ficaram incomodadas dizendo: “ah, mais uma vez a mulher negra sendo explorada por esse lado da sensualidade e que não sei o quê” e eu falava: “gente eles estão dizendo que eu sou linda, que eu sou maravilhosa, pensa a moeda tem dois lados, então nesse sentido a militante ficou muito mais feliz do que a própria Zezé Motta de estar sendo vista como uma mulher bonita, sensual, gostosa, desejada, porque foi uma virada.

Marco na carreira: A primeira família negra que se constituiu na TV brasileira …

Raça: Outro marco na carreira e no imaginário brasileiro foi o casal com Marcos Paulo, como foi? (Zezé fez par romântico com o ator Marcos Paulo na novela Corpo a Corpo)

ZM: Eu fiquei bastante chocada com a reação das pessoas. Teve uma moça que disse que toda vez que o casal se beijava, ela mudava de canal porque não acreditava naquele amor e aí aquelas coisas né, aquele gato apaixonado por aquela mulher, e aí aquelas coisas né, os adjetivos vêm e aí teve um homem que chegou a ponto de dizer que não acreditava que o Marcos estava precisando tanto de dinheiro para passar por essa humilhação; teve um outro maluco que chegou ao ponto de dizer que se ele fosse funcionário da Globo e fosse obrigado a beijar na boca, ele disse que lavaria a boca com água sanitária todos os dias, então quer dizer, é uma doença o racismo.

Raça: Como você pensa que a gente vai sair dessa doença?

ZM: Eu acho que a solução seria pelo currículo escolar, faz falta no currículo escolar que se fale sobre os heróis negros, para que as crianças aprendam a se amar desde crianças. A saída é investir nas crianças.

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