Desfile-Performance da Coleção Asè, TCA, Salvador – BA. Fotografia de Edgar Azevedo. Modelo Suzane Massena.

“É manhã de sábado, por volta das 8:00 horas, a aula está marcada para começar as 8:30 horas, e elas sempre fazem questão de chegar mais cedo. Temos a necessidade de pegar os atabaques para levar para o local da aula. Essa rotina é feita todas as aulas e lá estão elas: os instrumentos de percussão já são pesados para os homens, porém esse motivo não as preocupa. Na maioria das vezes percebo que os meninos deixam os mais pesados para elas carregarem, embora isso tudo pareça um teste de resistência que elas conduzem com naturalidade e vontade de aprender. (...) Em todos os momentos fico pensando por que elas querem fazer parte deste contexto, sem ao menos ter a possibilidade de tocar nas festas? Qual seria a real motivação de dominar um instrumento que por mais 200 anos foi tocado só por homens. ”

Essa fala é de Iuri Passos, professor da Escola de Música da UFBA, pesquisador em etnomusicologia e Alagbè do Terreiro do Gantois. Idealizador do projeto Rum Alagbè; ele ensina desde 2001 os ritmos sagrados de matrizes africanas, sem restrição de gênero, a crianças e jovens da comunidade do Terreiro Ilé Iyá Omi Asé Iyamasé, conhecido como Terreiro do Gantois, fundado em 1849. Numa das casas mais antigas do candomblé Ketu, o projeto Rum Alagbè constrói um debate sobre relações de gênero e tradição afro-brasileira, sob a justificativa de que muitos Alagbês, que são os mestres dos atabaques ou responsáveis pelos cantos e toques no Candomblé, e foram ensinados por mulheres, as Egbomí, cujo saber musical deve ser mantido vivo.  Fomos colegas na pós-graduação quando cursei ‘Tópicos Especiais em Gênero II: Introdução aos Estudos de Gênero, Relações Étnico-Raciais e Sexualidades em Música’, no PPGNEIM - UFBA com a Profa. Dra. Laila Rosa em 2016, minha grande parceira de artivismo, compositora da trilha sonora do desfile da Coleção Asè e junto com Iuri Passos construímos algumas conexões entre música, religiões de matriz africana e moda, como a musicista relata:

“Em novembro de 2016 fomos para o estúdio gravar um encontro de combinações musicais “simples”: vozes, violino elétrico, trio de atabaques, gã e efeitos, e igualmente ricas, por serem de um lado, marcadas pela complexidade timbrística, harmônica e rítmica do trio de atabaques  (rum, rumpi e le), de outro, pela combinação inusitada com o violino elétrico. Foram levados por Laila os temas no violino elétrico, algumas mitologias dos orixás femininos, as Iabás (PRANDI, 2001) e o desejo de que tivéssemos as 3 nações – Jeje, Ketu e Angola - sonoramente representadas. Iuri (direção musical da percussão e gã), Adeline, Brenda e Daniela, definiram quais seriam os 3 toques: 1. Savalu (jeje), por ser comum a vários vodunsi; 2. Daró (Ketu), por ser um padrão rítmico representativo do orixá feminino Iansã e 3. Barravento (Angola), por ser representativo da nação Angola e tocado “de mão” (sem os aguidavis/varetas). Gravamos as percussões e, por fim, as vozes, violinos  e sanfona em 1 das 3 faixas. Além da gravação, foram incorporadas ainda bases eletrônicas  e um  hino da umbanda, cantado, para “abrir” e “fechar” os trabalhos, pelo “axé” de sua presença na trilha e durante o desfile ”.

Celebrando a fé na espiritualidade, abrimos nossa gira com um hino da Umbanda, contemplando também a minha aproximação com esse universo e fazendo questão de tecer esse diálogo entre as diferentes referências de sagrado de matrizes africanas e afro-brasileiras na Coleção Asè. Uma produção musical artivista feminista e anti-racista elaborada pela compositora Laila Rosa em processo colaborativo com o Projeto Rum Alagbè. Esse engajamento esteve presente em todas as dimensões da produção da Coleção Asè e da trilha sonora que culminou no desfile no Angola International Fashion Show em Luanda, Angola, e depois com execução ao vivo num desfile-performance no Teatro Castro Alves, durante o projeto “Conversas Plugadas”, em desfile com todas as modelos negras, com seus cabelos naturais, acompanhadas pela música de Asè,  para um espaço lotado por pessoas negras, e sobretudo mulheres que fizeram questão de ocupar aquele espaço normalmente marcado por uma hegemonia branca e de classe média. E essa foi a trilha que embalou outras trilhas para o meu caminho...

Para ouvir a trilha sonora da Coleção Asè, acesse o link:

https://soundcloud.com/laila-rosa-1/trilha-da-colecao-ase-de-carol-barreto

CAROL BARRETO

Mulher Negra, Feminista e como Designer de Moda Autoral elabora produtos e imagens de moda a partir de reflexões sobre as relações étnico-raciais e de gênero.  Professora Adjunta do Bacharelado em Estudos de Gênero e Diversidade - FFCH – UFBA e Doutoranda no Programa Multidisciplinar de Pós-Graduação em Cultura e Sociedade – IHAC – UFBA, pesquisa a relação entre Moda e Ativismo Político

*Este artigo reflete as opiniões do autor. A Revista Raça não se responsabiliza e não pode ser responsabilizada pelos conceitos ou opiniões de nossos colunistas

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