“A primeira vez que estive com Benedita da Silva foi no lançamento de um de meus livros Manual de Sobrevivência do Negro no Brasil no início  dos anos 90, no Rio de Janeiro”, recorda Maurício Pestana, presidente do conselho editorial de RAÇA, minutos antes de iniciar esta entrevista. Passaram mais de uma década e neste período a  ascensão política de Bené (como carinhosamente é chamada) atingiu níveis jamais conquistados  por um negro no Brasil: foi vereadora, deputada, senadora, ministra e governadora. “Sua trajetória tem servido de inspiração e também de críticas, mas, seja qual for a opinião, uma coisa é certa: Benedita da Silva tem lugar seguro na história política do Brasil. Como você poderá comprovar nesta entrevista concedida à RAÇA”.

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A Senhora ocupou praticamente todas as esferas de poder em seu estado. Foi vereadora, deputada, senadora e governadora, como é lidar com o poder sendo negra, em um país que o poder é majoritariamente masculino e branco?
Isto é uma conquista. Certamente minha militância tem demonstrado os resultados que tenho até então para fazer com que o negro ocupe um espaço, e de destaque, isso não significa dizer que acabou o racismo, o negro está chegando, porque estamos lutando e batalhando. Na medida em que você tem consciência da existência da desigualdade social com marcas profundas na desigualdade racial e queira levar isso como bandeira na política, temos que trabalhar muito, não é fácil, então tenho como grande desafio em todos os espaços que ocupo poder estar na condição de mulher negra num país visivelmente preconceituoso. Mas é importante dizer o quanto é sofrido para quem levantar essa bandeira no convívio e na disputa do poder.

Para Senhora, uma pessoa de origem humilde, como a maior parte da população negra e excluída deste país qual o maior obstáculo que o negro enfrenta para conquistar a ascensão e o poder político?
Primeiro o descrédito. Culturalmente nós negros temos que trabalhar e conviver com o descrédito, vamos ouvir o tempo todo “isto não vai dar certo, isto não vai levar a lugar algum”, temos que enfrentar o fato da nossa imagem não estar associada historicamente à inteligência, que o espaço a ser ocupado não é o nosso, enfrentar as rasteiras, aquelas coisas que você sabe... Ficam evidentes o preconceito, a disputa, você observa que seu adversário está incomodado com sua imagem, com sua inteligência.

Na condição de secretaria da assistência social e dos Direitos Humanos, como tem sido trabalhar em um governo que vem sendo acusado de endurecer e de até usar de uma certa truculência nas comunidades onde vivem a maioria da população negra do rio de janeiro?
O governo do estado do Rio de Janeiro pela primeira vez em muitos anos tem uma aliança muito forte com o governo federal, que está investindo seus equipamentos, no saneamento básico dentro do Programa de Aceleração ao Crescimento (PAC). Hoje, o resultado que nós temos é este abandono mas, o governo do estado do Rio de Janeiro está entrando nas comunidades para dar segurança e oportunidades.

Existem setores do movimento negro (principalmente no Rio de Janeiro) que a acusam de não ter uma maior participação junto à questão racial. Como a senhora vê isso?
Dizer que a minha história não faz parte do sucesso da nossa luta é não ter o mínimo de visão, ou melhor, é ter uma visão restrita, minha primeira aliança não foi a partir da cor da pele, porque a cor da pele pelo contrario, em algum tempo eu a rejeitei, porque ela significava o horrível, o feio, o ruim, o analfabeto, o ignorante, o que morava em piores condições e passava fome, então eu poderia negar isso, sempre tive instrumentos para negá-lo. Graças a Deus, tive a oportunidade de ter militância em diferentes movimentos, e sou uma pessoa completa porque sou do movimento das mulheres, sou do movimento negro, sou do movimento do favelado. Então quem tem esta trajetória, quem tem este acúmulo, tem uma visão muito mais abrangente porque eu não conheço só os negros que conseguiram chegar às universidades, nem apenas os negros que conseguiram chegar às instituições do movimento negro, eu conheci aqueles negros que não serviram de inspiração para livros, mas que eram minha própria história, minha própria vida.

Como foi sua vida à frente de um ministério do governo Luiz Inácio Lula da Silva?
Tenho orgulho de ter passado pelo do qual recebi do Presidente Lula, um ministério com verba, com poder e não uma salinha...  Construímos um grande trabalho que frutificou e que tem sido um  dos grandes instrumentos para as políticas sociais do governo, que é o Ministério da Assistência Social, hoje, Desenvolvimento Social de Combate à Fome. Tenho orgulho de minha passagem pelo governo.

A senhora recebeu dezenas de acusações por conta da viagem que culminou em sua saída do ministério, como foi conviver com tudo aquilo? Acredita que a imprensa e a justiça são mais rigorosos quando o acusado é negro?
Não tenha dúvida! Eu afirmo, são muito mais rigorosos. Mas não é só a imprensa não, lamentavelmente nós não encontramos apoio. Lamentavelmente a manifestação de solidariedade em relação aos que não são negros é bem maior do que da nossa comunidade. Quero afirmar aqui que não existe tolerância conosco, não existe solidariedade conosco...

Que conselho daria para o jovem que hoje almeja galgar uma carreira de sucesso como a da senhora na política?
O que eu diria para os jovens, tenho visto nossa juventude engravidando muito cedo, constituindo família muito cedo, com compromissos familiares muito cedo. Sempre que posso, oriento a não entrarem nesta, não entre, por pior que seja a sua situação econômica, por maior que seja o racismo, a uma luz no caminho: o saber! Primeiro o saber não ocupa lugar, ninguém pode tirar de você aquilo que você sabe, portando, acredite, tenha esperança, tenha fé. É importante que tenha toda energia para enfrentar os obstáculos.

Hoje, existe uma discussão muito grande em relação à intolerância que algumas religiões evangélicas, sobretudo, as neopentecostais com relação às religiões de matrizes africanas. Como a Senhora, uma mulher evangélica, se posiciona a este respeito?
A constituição federal garante os direitos individuais e coletivos da livre manifestação da religiosidade e ponto. Particularmente, sou evangélica apesar de ter vivido com os meus pais que praticavam a umbanda. Fui nascida na umbanda, praticava a umbanda, fui uma pessoa que tive uma trajetória no sincretismo, talvez isso tenha amadurecido meu grau de tolerância, mas toda a cultura evangélica não foi uma cultura que ajudou a compreender esse grande direito, que é o direito das pessoas livremente manifestarem a sua espiritualidade seja na religião A ou B. É uma coisa que estou dizendo não apenas à da RAÇA, mas é uma coisa que falo com padres quando participo de seminários e debates sobre a intolerância. Não só com a questão das religiosidades até mesmo das discussões sobre as opções sexuais de diretos individuais e coletivos que a sociedade tem. Sempre deixo claro que a sociedade brasileira é uma sociedade plural e que a constituição brasileira nos garante o direito de pensar e expressar nosso pensamento.

Os estados unidos já discutem uma candidatura negra à presidência da república, quando a Senhora acredita que poderemos chegar a esta condição?
Só depende de nós. Não vamos esperar que ninguém fabrique uma candidatura negra, seja para ocupar qualquer espaço, depende de nós, de trabalharmos para que essa candidatura aconteça. E vai ser uma grande batalha, assim como é uma batalha para a mulher sendo negra mais ainda. Ainda vale aquela frase do Vandré “Quem sabe faz a hora”, eu acho que depende de nós.

A senhora já ocupou o cargo de Senadora, conhece bem aquela casa, como viu a absolvição do presidente Renan Calheiros?
Olha, eu conheço aquela casa e sei perfeitamente as implicações e dificuldades de uma votação por lá se eles fi zeram certo ou errado, o Congresso tem poderes plenos para tomar a decisão. O senado também expressa a vontade do povo, isto quer dizer que todos aqueles senadores são representantes do povo tanto os que estavam contra como os que estavam a favor, portanto emitir opinião é uma decisão sempre muito complicada. No tempo que passei pelo Congresso, sempre defendi o voto aberto, mas enfim já decidiram.

Algo que a senhora desejaria dizer a mais?
Eu quero parabenizar a RAÇA que tantas alegrias nos tem dado. E, nesta nova fase da revista, estou muito feliz por poder estar dando a minha opinião aqui nas “Páginas Pretas”. Pra ser sincera, eu sempre teci comentários de que a nossa revista -- porque eu a tenho como nossa deveria ser mais completa e ela para ser mais completa, deveria ter política. Na estréia desta seção li um assunto altamente badalado que foi colocado em alto nível acompanhei debates com figuras de São Paulo, do Rio de Janeiro, Minas Gerais e Rio Grande do Sul sobre o sistema de cotas. Talvez, muitas pessoas não conhecessem o reitor Timothy Mulholland. Na entrevista ele falou da violência, com que nossa luta é tratada, agora se ele sentiu essa violência imagine nós o que temos passado para que hoje a nossa revista tenha estas “Páginas Pretas”? Acho que tem sim que informar as pessoas sobre política: ela também faz parte do mundo negro. É possível que amanhã digam para nós que temos que tratar da nossa cultura, que a gente só tem que tratar da nossa beleza, do nosso cabelo... Mas, temos que tratar da nossa política também até porque a nossa beleza dança e fica totalmente no anonimato se não tivermos a nossa política. Nós não estaremos diplomados se não tivermos a nossa política.

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