Saiba mais sobre a história de vida da beata Nhá Chica

 

TEXTO: Uelinton Farias Alvez | FOTO: Divulgação | Adaptação web: David Pereira

Estátua da beata Nhá Chica | FOTO: Divulgação

Estátua da beata Nhá Chica | FOTO: Divulgação

Francisca de Paula de Jesus, Nhá Chica, também conhecida como “A santa de Baependi” era uma mulher negra simples, analfabeta ou de pouquíssimos conhecimentos escolares, neta de escravos e filha de Isabel, também ex-escrava. Nascida no ano de 1808 na “porteira dos Vilellas”, fazenda localizada em santo antônio do rio das mortes pequeno (distrito de Santo Antônio do Rio das Mortes Pequeno) - um povoado a seis léguas (aproximadamente a 13 km) de São João Del Rei -, na antiga província de Minas Gerais, conhecida pela grande concentração de ouro e diamantes; e que, por isso, contava com uma enorme população escrava no período. Tida como “alta, morena e bonita”, ao contrário do irmão, preferiu a vida de reclusão.

Viveu na mesma Minas Gerais, só para lembrar, onde também floresceu a liderança de Chico Rei e, ainda, o poder sedutor e guerreiro de Chica da Cilva - que foi mulher do influente João Fernandes, conhecido tratador de diamantes -, além do célebre padre dom Silveira Gomes Pimenta, que chegou a arcebispo de Mariana, em 1906.

Conforme o livro de assentos de batismos da paróquia, foi batizada em 1810, na capela de Santo Antônio, onde se encontra ainda a pia batismal na qual se deu a cerimônia. Segundo consta, Francisca teve apenas um único irmão, de nome Teotônio Pereira do Amaral, que nasceu provavelmente quatro anos antes dela, em 1804. A família logo se mudaria para Baependi e se instalaria numa pequena residência na Rua das Cavalhadas, hoje Rua da Conceição. Nesta casinha, Nhá Chica viveria a maior parte de sua vida terrena, atendendo as pessoas, pregando o evangelho e dando conselhos, passando a ser conhecida como a “serva de Deus”. Se tivesse posses, provavelmente,como as moças brancas de sua geração, seu caminho seria o convento. Hoje a casinha de Nhá Chica é quase um santuário, aberta à visitação pública e às romarias de fieis e devotos da beata mineira.

Pouco tempo depois morre Dona ISabel, sua mãe, e Nhá Chica fica órfã com a idade de dez anos apenas. Seu irmão Teotônio, porém, mais velho, teve uma vida bem diferente e agitada: galgou os cumes do poder político, judicial e militar da chamada Vila de Baependi, chegando a ser vereador, juiz de Vintena e lugar-tenente da Guarda Imperial. Era, na verdade, um negociante influente. Tinha também marcada presença na religiosidade baependiana, ocupando a mesa da Irmandade de Nossa Senhora da Boa Morte, como membro. Casado com dona Leonora Maria de Jesus, não há registro que tenha deixado qualquer descendência, o que fez da irmã religiosa sua herdeira universal.

Embora ela pudesse acompanhar seu irmão ou casar-se, preferiu morar em sua casa humilde e dedicar-se inteiramente a Deus e às pessoas mais necessitadas. Ainda no leito de morte, sua mãe lhe recomendara a vida solitária, para melhor praticar a caridade e conservar a fé cristã. Foi o que fez. Seguindo fielmente esse conselho materno, não deixou a casa onde vivia, recusando o convite do irmão poderoso que a chamava para sua companhia ilustre. Manteve-se isolada do mundo. Rapazes do seu tempo pediram-na em casamento, mas recusou a todos eles. Tornou-se até amiga de um deles que se fazia muito insistente, em gratidão pelas suas boas intenções. Sua única companhia era o escravo liberto Félix, que cuidava dos trabalhos e dos afazeres da capela. Católica fervorosa, e seguidora que era desde pequena de Nossa Senhora da Conceição, construiu ela mesma uma capela, hoje inexistente, mas que exigiu cerca de 30 anos de sua dedicação para ser construída, pois dependia das doações que recebia, sobretudo, da população.

Essa casa é a imagem de sua vida simples e dedicada aos pobres. Era ali que ela recebia todos aqueles que acorriam aos seus conselhos e as suas orações. Nhá Chica fazia suas preces à “Sua Sinhá”, como ela chamava Nossa Senhora da Conceição, representada numa pequenina imagem, de terracota, até hoje conservada em sua atual casa-museu.

 

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