Nascido no bairro do Harlem,  em Nova York,  em 1952, o cineasta, ator e escritor, Dennis Watlington tem caminhado no fio da navalha por toda a sua vida como personagem principal de um drama que afeta parcela significativa da juventude afro-americana dos guetos: o envolvimento com drogas.
Aos 14 anos, após mudar de escola várias vezes, viciou-se em heroína e depois de superar essa fase, conquistou uma bolsa de estudos na Hotchkiss School, uma das mais importantes escolas de seu país. Mais tarde, entrou para a Universidade de Nova York e passou a lutar por causas civis, se envolvendo com teatro e cinema. Mas o submundo e as drogas cruzaram o seu caminho novamente e Dennis se viu viciado em crack. E da mesma forma ele superou tudo outra vez para se tornar um autor de televisão vencedor, conquistando, inclusive, um Prêmio Emmy. Com o livro Chasing America, Dennis mostra o melhor e o pior que a América oferece a um negro e, nessa entrevista exclusiva, o artista revela um país pouco retratado nos filmes de Hollywood, onde nem mesmo o presidente Barack Obama escapa desse olhar diferenciado que vem do gueto

Em Chasing America está o melhor e o pior que um sistema como o norte-americano – copiado em quase todo o planeta como exemplo de democracia e de direitos – pode proporcionar a um negro. Afinal, o que ele oferece, de fato?
Você precisa compreender que eu tenho 58 anos de idade, meu tempo de vida atravessou um momento crítico nos Estados Unidos nos primeiros dez anos da minha vida. O país estava num período triste e tínhamos pouquíssimos direitos. Nós nos beneficiávamos de 1/4 do valor de uma cidadania norte-americana. Depois, o trabalho de Martin Luther King e o movimento dos direitos civis tiveram um impacto muito poderoso. Em 15 anos, mais ou menos, eu saí de niguer, que é o pejorativo de cor, depois negro, e afrodescendente. As coisas mudaram rapidamente. O movimento dos direitos civis negro foi o mais importante para as pessoas de cor e para as mulheres também na história norte-americana. Se você imaginasse o copo vazio durante 300 anos, nos últimos 50 anos, ele chegou a meio cheio, ainda precisamos encher a outra metade, em muitos casos vai ser uma coisa difícil, mas depois de 300 anos de servidão é uma realização fenomenal. Nós chegamos ao ponto de um real começo. Imagino que haverá muita resistência. Vamos tentar encher o copo completamente.

Você é um exemplo positivo de um programa de ação afirmativa, quando recebeu uma bolsa de estudos de uma escola importante. Vivenciei exemplo parecido e a grande dificuldade era acompanhar o resto dos alunos, mais preparados e oriundos de classes mais abastadas.  Enfrentou esse tipo de problema também?
Eu entrei nessa escola muito rica, uma das melhores dos Estados Unidos, através do que chamamos de situações um pouco inusitadas. Fui um viciado em heroína nas ruas do Harlem durante três anos e meio, quase morri e acabei contraindo hepatite de uma agulha contaminada, suja. Quando saí do hospital, eu tinha medo de ter uma recaída e duas coisas aconteceram comigo: descobri John Lennon quando ele e Yoko Ono estavam na luta pela paz mundial. Eles me atraíram pelas coisas que estavam fazendo e me mostravam que eu podia ser um guerreiro a favor da paz e não um guerreiro pela selvageria que eu tinha sido até então. A segunda coisa foi que as pessoas queriam que eu continuasse esta viagem, que eu participasse de encontros em outros guetos para falar mal das drogas. Num desses eventos, um homem branco de 45 anos, cabelos grisalhos e meio bêbado estava gostando do que eu estava falando e disse: “Você é um garoto legal, eu gosto de você, quero que você vá à Hotchkiss School. Eu nem sabia o que era Hotchkiss, mas alguém me falou que o cara era rico e  que a tal escola era só para afortunados  Três semanas depois, ele telefonou para o centro comunitário que eu frequentava no Harlem e pediu para eu ir à Wall Street, no escritório dele. Descobri que esse homem valia quase um bilhão de dólares. Ele queria que eu fosse para essa escola de ricos, apesar de eu não ter frequentado a escola nos últimos três anos, porque estava só injetando heroína.

E como foi o seu convívio em uma escola de alto padrão?
O contraste deve ter sido duro. Apesar de não ter tido suficiente educação, com o seu poder ele me fez entrar na escola. E entre o mundo que John Lennon pregava eu descobri rapidamente que: “Ah, eu quero um porsche!”. Entre John Lennon e um porsche, eu prefiro um porsche. As coisas se juntaram, foi a química perfeita. Eu, um pobre afrodescendente do Harlem que entre os treze e os dezesseis anos passou seis meses indo e vindo da prisão, entrando e saindo, um criminoso sem oportunidade alguma de fazer qualquer coisa, exceto sobreviver.
Em dois anos, fui chefe e presidente da classe. As pessoas votaram em mim, elas eram ricas e se tornaram grandes presidentes de empresas nos Estados Unidos.
Estive numa escola falando com jovens adolescentes em situação de risco e usei o fato de que o meu passado comprovava que eles poderiam fazer qualquer coisa. Ambição, conhecimento e as artes não pertencem a nenhum indivíduo que não seja aquele que vai ao encontro e que busque isso. Para mim não é uma teoria, é a minha vida.

No Brasil, há poucos cineastas negros trabalhando para a TV, não temos mais que meia dúzia. O reflexo disso é uma grande invisibilidade de negros na TV brasileira, seja nos programas de entretenimento ou na teledramaturgia. Esse problema também existe nos Estados Unidos?
Eu sou um dos pouquíssimos afrodescendentes que escrevem ou podem escrever para a televisão. As maiores redes têm listas de quem pode escrever para eles. Nos Estados Unidos foi alcançado um grande progresso, mas a maior parte dele vem da classe média para baixo, por causa da legislação. São oportunidades se abrindo nesse nível de trabalho de serviços públicos, tudo isso tem funcionado, tem crescido. Os maiores problemas estão na classe média para cima, em que acontece a maior parte da exclusão.
Vou te contar um caso: Você viu a última cerimônia do Oscar?
É basicamente uma janela para o mundo sobre a cultura americana. Mas se tivesse assistido pela primeira vez sem saber nada sobre os Estados Unidos, pensaria que a maioria dos norte-americanos são de brancos liberais, a maioria da população. É onde está o maior problema. Os democratas liberais usam pessoas de cor e conseguem fazê-lo culpando os republicanos, que seriam os racistas. Mas só assistindo aquilo! Eles não fazem festa, não celebram com a gente, não vão à missa com a gente, não convivem conosco e não gostam de nos contratar. Isso é a América!

Mas você falou em avanços e este quadro não é de tantos avanços assim.
Quando olhamos o aspecto histórico, sim, tivemos muitos avanços nos últimos 50 anos, principalmente entre os anos 60 e 70, período dos direitos civis, em 1964. Em 1965, o direito dos eleitores. E em 1973, vêm as Ações Afirmativas. Quem assinou foi o presidente Richard Nixon.

Daí foi um pulo para se chegar a Obama...
Mais ou menos... Nós impacamos nesse meio entre pobre e classe média, não saltamos da classe média para cima como deveríamos. Existe aí uma paralização, a questão da eleição do Obama é que os liberais pensam que o problema acabou, porque nós temos um negro lá. E o problema não acabou! Ainda somos os últimos em empregabilidade e em oportunidades no cinema. O mundo do entretenimento é bastante branco entre os que ganham dinheiro pra valer. Nós tinhamos vozes bastante questionadoras desses limites impostos pela sociedade americana antes do Obama. Jesse Jacksons e outros eram lideranças forte no caminho das mudanças, vozes poderosas nos ajudando a progredir. Desde que Obama se tornou a maior presença negra nos Estados Unidos, os afro-americanos que não querem nos ofender ou nos machucar ficam quietinhos. No todo, o pigmento caiu em vez de subir. Eu gosto do Obama e não tenho nada contra ele, mas ele amorteceu a nossa luta.

Isso faz lembrar um pouco do que aconteceu  no Brasil com os movimentos sociais. Com a ascensão de Lula, houve certa acomodação, uma vez que nesses movimentos  tínhamos um representante no maior posto do país. E como superar essa fase?
Bom, honestamente, o que eu vou dizer pode até parecer meio radical, mas é real. Ironicamente, se tivéssemos um presidente branco, neste momento, estaríamos nos saindo melhor do que esse estágio de empacado.

Não dá para esquecer que Colin Powell e Condoleezza Rice fizeram parte de um governo republicano, e branco!
Condoleezza Rice é uma funcionária pública de governo de mais alto nível na história norte-americana. E porque ela é republicana, ninguém fica sabendo de toda a sua potencialidade. Se ela fosse democrata, todos saberiam, e eu escrevi sobre isso e fiz a pergunta: “Será que ela não é negra, também?” Eu não sou republicano, mas respeito o fato de que uma mulher negra pode crescer a uma posição tão alta, e isso nos faz voltar aos democratas liberais nos Estados Unidos. Ele querem que nós nos encaixemos na sua ideia do que é pigmento. Às vezes, eu sou muito controverso porque tive essa vida na escola tão rica de brancos e a vida no Harlem de viciado em heroína. Aprendi como enfrentar os humanos como indivíduos. Olhar como indivíduos Condoleezza Rice, Colin Powell e um outro negro que temos na Corte Suprema – que também não gosto das decisões que ele toma – mas quero respeitá-lo porque imagino o quanto foi difícil para eles chegarem lá.
Sua biografia fala de oportunidades interrompidas por conta das drogas. O que faz alguém trocar um futuro melhor por um punhado de heroína, cocaína ou crack?
As drogas, não tem um porquê para usá-las. Drogas poderosas criam escravos e uma vez que você é escravizado, se torna escravo de uma substância, nada mais importa. Eu queria meu crack, minha heroína, mais do que eu queria esposa, filhos, oportunidades. E tive tantas oportunidades... Eu era o único negro que escrevia para o New York Times, Vanity Fair, tem uma lista aí. Os Estados Unidos me tratavam quase como um branco, que era uma realização. Mas no fim da contas, mesmo que eu combatesse meu abuso de substâncias, era um escravo e o pior de tudo, eu roubava. Roubaria até a dentadura de ouro da minha avó do criado-mudo. E quando ela sorrisse, dane-se (risos). Não tenho que dar desculpas. Só tenho a sorte de tantos irmãos e irmãs. Eu não morri! Tive a sorte de não ter morrido disso.
Dennis Watlington
O que te fez parar com as drogas?
Eu tinha perdido tudo, vendi os móveis da minha casa, tinha lugares empoeirados, só tinha pó. No meu caso, cheguei ao ponto de rogar ao traficante: “Pelo amor de Deus, me dê alguma coisa.” Certa vez, um traficante estava na escada e eu embaixo, pedindo pelo amor de Deus para ter alguma droga grátis. Ele disse que me daria sim, mas somente se eu permitisse que ele urinasse em cima de mim... (nesse momento, Dennis faz uma pausa em sua fala e se mostra extremamente emocionado). Aquele foi para mim o momento de mudança, mas todos devem enfrentar essa decisão. Eu chamo o momento de “try or die”, tentar ou morrer, experimentar ou morrer. Me lembro como se fosse ontem. “Se você tentar fazer isso, eu mato você.” Os traficantes são bem covardes e, provavelmente, ele sentiu a minha intensidade, a força que eu estava falando aquilo. Ele ficou com medo. Eu não contava esta história há anos, eu me lembro, o crack vem numa cápsula de plástico e ele falou: “Toma!” E jogou no chão. Apesar de ter passado anos, ouço o barulho até hoje, o som da cápsula caindo nos degraus.

O Brasil tem uma diversidade cultural muito grande com forte presença da cultura negra. Qual a sua percepção do país?
Para mim, a primeira percepção de Brasil foi nos anos 60. E nos Estados Unidos, naquele momento, eu nunca tinha visto uma nação que tivesse um rosto, uma face nacional negra como o Pelé, porque nos anos 60, com a história dos direitos civis, não havia alguém tão escuro tratado como um rei, com aquele respeito todo em nenhum outro lugar. Enxergava o Brasil diferente de fora e um lugar que conseguia, naquele momento, se projetar internacionalmente com uma cara negra. Não conheço os elementos internos, então não posso falar.

Barack Obama esteve recentemente no Brasil e ele tem um carisma muito grande aqui, principalmente da comunidade afro-brasileira. Talvez, diferente dos Estados Unidos, é quase uma unanimidade por aqui, mas sua passagem foi muito questionada. As pessoas esperavam que ele dissesse que estava feliz em visitar o maior país negro fora da África. A atuação do Obama é muito questionada também entre os afro-americanos?
Afro-americanos são bastante semelhantes, sejam lá no norte em meu país ou aqui no sul do seu país. O fato é que eles se sentem comprometidos por causa da cor da pele e, em muitas formas, ele tem sido um desapontamento. Para poder ser reeleito, Obama precisa dos seus eleitores brancos, e ele é muito cuidadoso em nem mencionar afro-americanos, porque tem medo de perder a eleição. É importante lembrar que ele foi criado no Havaí, onde 1 a 2% da população é afrodescendente. Obama tinha este avô negro, avós brancos, mãe branca, e pai africano que tinha abandonado o lar muito cedo. É o único afrodescendente que eu conheço que tem uma prancha de surfe.

Mas tem a Michelle!
Quando ele encontra Michelle vai para o sul de Chicago, naquele lado “África” dos Kennedy e, pela primeira vez da vida, teve um contato significativo com a comunidade afro-americana. A história dele é mais de um grande americano que vem daqui do outro lado do mundo, não um afro-americano como eu, tenho o sangue escravo dos meus ancestrais, meus pais sofreram segregação, os 300 anos de escravidão e de ser escuros e todas essas coisas que tivemos que lutar e batalhar para chegar aonde estamos. Obama não passou por nada disso e por isso ele foi capaz de se tornar presidente e conseguir bastante votos dos brancos. Ele não era um “brother” , ele era um primo, aí está a diferença.

Qual foi a emoção de ganhar um dos maiores prêmios da televisão americana, o Emmy?
Simplesmente, eu mereci!

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