Há muito tempo não via uma publicidade que expressasse com tamanha precisão e profundidade o racismo ainda internalizado nas sociedades contemporâneas, em particular nas judaico/cristãs.

Refiro-me a peça publicitária, veiculada recentemente pela marca “Dove” (empresa de cosméticos da multinacional holandesa - Unilever), onde, uma mulher negra, após usar o sabonete liquido da referida marca, não apenas troca a blusa de cor escura, por uma blusa branca,  como também troca de pele,  transformando-se numa mulher branca,  numa transição cênica aparentemente ingênua e inocente.

A reação a esta propaganda inusitada, estúpida e racista, foi imediata. Milhões de cidadãos e cidadãs do mundo inteiro se manifestaram de maneira veemente contra esta prática criminosa, que é a hierarquização racial de um lado e desqualificação racial do outro.

Neste sentido, é importante lembrar, que não foi a primeira vez que a “Dove” incorreu neste tipo de crime. Tanto em 2011 quanto em 2015, esta mesma empresa já havia sido acusada por ativistas dos direitos humanos de realizar campanhas racistas. Prova disto foram os anúncios de produtos de beleza para a pele (divulgados à época) em que a empresa afirmava que os mesmos poderiam ser utilizados em “peles normais e negras”.  Dando a entender que as peles negras não seriam normais.

No caso atual, a peça publicitária da “Dove” simboliza, não apenas o racismo de forma sofisticada, porém perceptível. É o branco representando, mesmo que subliminarmente, a limpeza, a pureza e a superioridade, ou seja, o fenômeno do branqueamento em estado puro, direto, sem rodeios.

Em verdade é o racismo travestido de inocência e leveza nas espumas brancas do bem querer, no sorriso nos lábios, na limpeza da pele e da alma.

Ver uma peça como esta, alcançando milhões de pessoas, afirmando hierarquizações raciais, num momento em que a defesa da igualdade e da diversidade é pilar central do processo civilizatório, é de doer na alma e no coração. Mais que isto, é para nos encher de indignação.

Por isto mesmo, devemos afirmar: que não basta desculpas esfarrapadas, como as apresentadas pela “Dove”, do tipo “fomos mal interpretados” ou “estamos arrependidos da ofensa que causamos”, para que o mal seja reparado. Afinal, a criação de uma peça publicitária, como a que foi divulgada,  por uma empresa multinacional,  demanda profissionais extremamente competentes e bem remunerados. Equipes de revisão e supervisão, assim como a aprovação de variados escalões de poder na empresa.

Portanto, é inadmissível que mensagens como estas sejam vistas apenas como erros ocasionais ou pessoais e que possam ser reparadas com meras desculpas. Para nós, antirracistas, é insuficiente que a publicidade seja apenas retirada do ar. É necessário punição e reparação.

Punição, que deve se traduzir no boicote a todos os produtos da Dove, enquanto ela não apresentar para o público de forma clara seu compromisso com a promoção da igualdade e da diversidade. E reparação por meio de campanha, patrocinada pela empresa, de promoção da igualdade racial e defesa da diversidade cultural com a mesma amplitude que esta nefasta campanha alcançou.

Axé!

Toca a zabumba que a terra é nossa!

Zulu Araujo

Foi Presidente da Fundação Palmares, atualmente é presidente da Fundação Pedro Calmon - Secretaria de Cultura do Estado da Bahia.

 

 

*Este artigo reflete as opiniões do autor. A Revista Raça não se responsabiliza e não pode ser responsabilizada pelos conceitos ou opiniões de nossos colunistas

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