Dentro da comunidade lésbica eu sou negra,
e dentro da comunidade negra eu sou l
ésbica.
Qualquer ataque contra pessoas negras
é
uma questão lésbica e gay,
porque eu e milhares de outras mulheres negras
somos parte da comunidade l
ésbica.
Qualquer ataque contra l
ésbicas e gays
é
uma questão de negros,
porque milhares de l
ésbicas e gays são negros.
Não existe hierarquia de opressã
o.
(Audre Lorde)

 

Como pensar que independentemente da nossa prática sexual, desejo, afetividade ou orientação sexual, todos os retrocessos da sociedade nos afetam? Numa perspectiva interseccional, podemos entender que nossos corpos racializados são indissociáveis dos demais marcadores sociais da diferença, como genero, geração, classe social, imagem, origem, dentre outros. As palavras da poeta feminista estadunidense Audre Lorde nos ajuda a entender que é impossível vivenciar apenas uma perspectiva da nossa identidade e que cada contexto aciona um pertencimento específico, que reverbera diferentemente das demais faces de uma mesma existência.

 

No campo das artes, percebemos cada vez mais a potência, tanto da poesia como das diversas formas de construcao das imagens, como uma contribuição às nossas lutas políticas. Aqui, com a beleza e a força do trabalho de Juh Almeida, mulher negra baiana, fotógrafa, filmmaker e estudante de cinema, e com apenas 27 anos, marco a importancia de gritar em uníssono o quanto ainda temos que enfrentar para transformar a dor em poesia!

 

É complexo e instigante definir a ótica de Juh Almeida, quando ela própria se observa como uma artista em constante construção. Por considerar a vida plural, pensa que sua personalidade profissional é formatada em vários momentos e em consonância com o tempo, através de estreitos ou largos percursos, das impressões que guarda do mundo e pela certeza que viver encerra mais dúvidas que certezas. Profissão e vida estão conectadas em seu trabalho, pois, para a arte de fotografar busca inspiração na simplicidade do cotidiano, nos olhos e nos passos de quem está ao seu redor. Uma das maiores marcas de suas fotografias reside no fato de fotografar não apenas com a câmera, mas com o próprio coração, como ela mesma diz:

 

"Como mesclo vida e obra o tempo inteiro, 90% dos meus projetos são de militância, é quase impossível escrever o argumento de algum trabalho sem sangrar nele, sem colocar minha vivência, minhas dores… Enquanto mulher negra e lésbica quero falar por mim e contemplar as que estão no mesmo barco que eu, quero que as pessoas olhem meu trabalho e se sintam representadas e contempladas; em busca disso procuro dar protagonismo a nós, que por vezes fomos caladas de alguma forma, e foi por meio da imagem que encontrei a maneira de dar a voz.. É através das imagens que rebato o racismo, o machismo e a lesbofobia que sofro/sofremos diariamente no Brasil.”

 

Na serie intitulada |ENGRENAGENS|, a artista trata do feminino como mecanismo potencializador que opera aos pares, uma encaixando e preenchendo os espaços vazios da outra. Como conceito das fotografias ela expressa que “Mantendo as engrenagens ativas e constantes, as potências dos femininos são acionadas mutuamente, a partir da motivação e dos impulsos semelhantes, em busca de alcançar objetivos em comum e ganhando proporções e forças significativas quando engrenadas para impor as nossas reivindicações”.

 

 

|ENGRENAGENS|
Fotografia: Juh Almeida
Assistência Fotográfica: Alile Dara
Edição: Isabela Araújo
Retratadas: Érica Caru e Thainara Oliveira

 

 

 

 

 

 

Comentários

Comentários