A primeira vez que eu vi o Ilê Aiyê passar na avenida, eu tinha 8 anos de idade. Não lembro da emoção que senti naquele momento, mas quando eu recebi o convite para desfilar pelo bloco e vir aqui contar minha experiência, minha alegria foi genuinamente infantil. Comentei com amigos próximos: “Vou chorar”. E chorei. Ainda estou um pouco emocionada escrevendo esse texto, confesso.

Às 19h30 em ponto, enquanto subia a ladeira do Curuzu, para a concentração do bloco, no sábado, senti uma energia vibrando dentro de mim. Talvez eu nunca saiba explicar o que era essa energia. Ao ver todas aquelas pessoas juntas, esperando a Pérola Negra fazer sua 43ª passagem pelo Carnaval, eu tive a confirmação do poder do Ilê. Sou mulher negra e, mesmo modestamente, faço parte da militância. Em nenhuma das rodas de conversas de que participei, tive a experiência que o Ilê me deu.

Enquanto estive ali, senti o amor do povo preto. Eu vi irmãs e irmãos unidos, eu vi casais amando-se e orgulhosos de estarem ao lado um do outro. Eu vi toda uma comunidade que era Ilê Aiyê, mesmo não estando com os adereços do mais antigo bloco afro de Salvador. Eu vi crianças, vi idosos e soube que aquele amor era passado por gerações às quais eu nem saberia estimar quantas.

A força do Ilê levou emoção a quem estava no desfile do bloco como a repórter Itana (E)

A força do Ilê levou emoção a quem estava no desfile do bloco como a repórter Itana (E)

Quando a bateria do bloco chegou, por volta de 21h27, sob os gritos e aplausos de quem a esperava, a eleita Deusa do Ébano, Gisele Soares, terminava seu ritual de preparação, para fazer os pedidos de bênçãos aos orixás, antes de o bloco desfilar pelas ruas da Liberdade – considerado o bairro mais negro da capital. Dado início ao cortejo, eu, que me encontrava pela primeira vez, me senti imensamente acolhida por aquela comunidade. Ao passo que os versos da canção diziam: “Constitui um universo de beleza/ Explorado pela raça negra/ Por isso o negro lutou/ O negro lutou”, e eu ouvia o grave da bateria mais linda que já vi na minha vida, o coração batia forte no peito.

Não me julguem mal, mas, naquele momento, eu sequer conseguia pensar na minha militância. Eu esqueci o auto-ódio à cor da minha pele e aos meus traços negroides – ódio esse que me foi ensinado a ter desde criança. Não consegui pensar na guerra ao tráfico de drogas, que mata dezenas de nós diariamente. Esqueci a dor e o racismo ao qual tantas pretas e pretos, como eu, são submetidos todos os dias. Eu só conseguia sentir felicidade, orgulho e gratidão por estar ao lado dos meus semelhantes.

Não é preciso muito tempo com aquelas pessoas lindas (nunca vi tanta gente bonita concentrada num mesmo lugar) para entender por que o Ilê Aiyê é tido como o Mais Belo dos Belos. Com certeza, na próxima vez ele passar, eu vou estar lá.

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