Uma estampa da marca de roupas Farm que retrata o Brasil no século XIX gerou revolta nas redes sociais. As críticas começaram quando um blogueiro compartilhou a imagem de uma peça da grife criticando os desenhos por retratar pessoas negras como escravas. O questionamento viralizou, com o apoio de muitos internautas, e a própria Farm decidiu pedir desculpas e remover a estampa de circulação.

— Eu postei no meu perfil as pessoas confirmaram que a estampa era mesmo racista. Se não é uma pessoa negra fazendo essa denúncia, eles iam vender o racismo. Ninguém quer ser representado dessa forma, me senti indignado. A escravidão aconteceu e ninguém vai conseguir apagar, mas não queremos ver esse período histórico sendo comercializado pela marca. Não queremos nossa imagem reduzida a um estereótipo — explicou o blogueiro José Carlos Angelo da Conceição, de 29 anos.

Os desenhos mostram mulheres e homens negros trabalhando, com figurino e cenário da época do Brasil Colônia, quando a escravidão era um dos motores da economia no país. "Eu realmente estou bem cansado de dar ibope pra branco. Mas é impressão minha ou a Farm fez uma reprodução da polêmica estampa da Maria Filó com mulheres negras representadas como escravas na Casa Grande?!", escreveu o bolgueiro, fazendo referência a uma estampa da grife Maria Filó que também gerou polêmica parecida.

Nos comentários, muitos concordaram, usando expressões críticas como "plágio racista". Quando as críticas começaram a se espalhar, a Farm apagou as fotos da estampa de suas redes sociais, pediu desculpas e se comprometeu a remover a peça das lojas.

— Pessoas brancas jamais estariam retratadas com uma trouxa na cabeça ou puxando um burro. Uma estampa dessas jamais passaria desapercebida pelos olhos de uma pessoa negra como passou pela maioria das pessoas — avaliou.

A assessoria de imprensa da FARM informou que a ilustração "Rua do Mar" usada na atual coelação refere-se a uma cena cotidiana do período pós-colonial, desenhada em preto e branco. Segundo a nota, a estampa começou a ser criticada como racista no último sábado e, mesmo a marca não tendo essa intenção, a associação negativa motivou o recolhimento das peças das lojas e do site.

A Farm também respondeu aos internautas através do perfil institucional do Facebook alegando que "não teve intenção de causar sentimento negativo", e que já havia apagado as fotos com a peça de roupa que também seria retirada das lojas. A marca disse ainda que "segue aprendendo para não cometer os mesmos erros" e pediu desculpas. O EXTRA procurou pela blusa no site da marca e não encontrou o produto à venda.

Veja abaixo a íntegra da nota enviada pela assessoria de imprensa da Farm:

"Devido à polêmica em relação à estampa "Rua do Mar", utilizada na atual coleção, a FARM esclarece que a ilustração refere-se a uma cena cotidiana do período pós-colonial, desenhada em preto e branco. No último sábado, a estampa começou a ser criticada como racista. Mesmo a marca não tendo esta intenção, a simples associação negativa fez com que a FARM começasse a recolher as peças das lojas e do site. A FARM disponibilizou a arte da estampa, através de sua assessoria, a fim de facilitar a apuração dos fatos pela imprensa e pede desculpas a todos pelo sentimento negativo gerado."

Relembre outros casos

No ano passado, uma estampa da marca Maria Filó que retratava a escravidão de negros também causou revolta na internet. A polêmica veio à tona com a postagem de uma consumidora numa rede social. Ela decidiu se manifestar depois de se deparar com a imagem de mulheres negras servindo brancas numa estampa durante uma visita à loja de Niterói, na região metropolitana no Rio de Janeiro.

Na época, a Maria Filó informou que a roupa seria retirada das lojas e que a estampa foi inspirada no pintor francês Jean Baptiste Debret. Porém, a artista e pesquisadora Patricia Gouvêa disse, na época, que a versão original da obra teria sido alterada de uma maneira que reforça ainda mais o conceito racista que gerou a revolta nas redes sociais.

A Farm também foi alvo de críticas nas redes sociais em 2015, quando usou uma modelo branca para homenagear Iemanjá em comemoração ao dia de Nossa Senhora da Conceição daquele ano. Os usuários criticaram a escolha da modelo e colocaram em pauta a ausência de meninas negras nos catálogos de moda.

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