Conheça a história da doutora e ativista do movimento negro e jovem, Marcilene Garcia, que teve o estudo como grande empreendimento de vida

 

TEXTO: Maitê Freitas | FOTO: Socorro Araújo | Adaptação web: David Pereira

A doutora Marcilene Garcia | FOTO: Socorro Araújo

A doutora Marcilene Garcia | FOTO: Socorro Araújo

Marcilene Garcia de Souza, Lena para os amigos, hoje tem 37 anos. Em 2010, foi a primeira mulher negra a receber o título de doutora pela Universidade Federal do Paraná. Mudando o curso e o estigma de uma menina nascida em família pobre, no interior do Paraná, Lena viu nos estudos a oportunidade de mudar o caminho que para muitos negros é destino fadado, pelo menos nas estatísticas. “Minha mãe sempre disse: ‘quer vencer na vida? Estude’. Então eu estudei, não faltava na escola, caminhava 11 km numa estrada de terra escura para voltar para casa. Estudar foi o meu empreendimento”, diz. Filha caçula de uma família de nove irmãos, Lena foi a primeira a fazer universidade e obter título acadêmico. “Não me vejo privilegiada. Numa sociedade racista e cheia de obstáculos sociais, consegui burlá-los. Eu me sinto muito comprometida em fazer mais e melhor para população. O que me faz lutar é a certeza do meu compromisso com os nossos antepassados negros que foram assassinados, humilhados e torturados neste país por mais de 350 anos. São as lembranças deste passado que sempre me moveram para o futuro”.

A educação sempre foi um norte e o solo para que as raízes de Lena amadurecessem. Nos diálogos de amor, como costuma chamar os momentos sentados em círculo na companhia do pai, recebia os primeiros princípios de respeito e solidariedade. “Meu pai era um contador de histórias. Ele foi autodidata, aprendeu a ler e a escrever sozinho, deu aula e alfabetizou outras pessoas. Sempre sentávamos em círculo para ouvir suas histórias, que nos ajudaram a compreender o ser humano. Apesar de não ter luz e livros em casa, eu e meus irmãos ousávamos, lendo bula de remédio, pedaços de revista e a Bíblia. Escrevíamos no chão e na areia da praia em Itapoá (SC). Contávamos o número de plantas e frutas no quintal, ouvíamos histórias e músicas antigas. Percebi, posteriormente, que aquela forma de educar continha signos da história dos nossos antepassados negros, sobretudo quando se refere a uma educação voltada para olhar o todo, respeitando os mais velhos, os animais e as plantas”.

Quando questionada sobre o título de ser a primeira doutora negra da faculdade de sociologia da UFPR, Lena deixa de lado a emoção e a memória para ser enfática sobre compromisso e responsabilidade social. “O mérito da titulação é importante para a população negra, possibilita a ocupação de espaço e garante a diversidade do olhar numa educação fundamentada em conceitos eurocêntricos. Para mim, o título acadêmico é sinônimo de responsabilidade e compromisso com a multiplicação do saber e do olhar para diversidade étnico-cultural afrodescendente”.

A doutora, que no passado vendeu doces caseiros e mandioca para custear o transporte e garantir presença na sala de aula, hoje se pauta no compromisso e na responsabilidade de ser referência perante a comunidade afro e na militância dentro do movimento negro paranaense. Lena criou o IPAD (Instituto de Pesquisa da Afrodescendência), que desenvolve projetos de ações que fomentam a educação do negro no meio universitário. “Muitas vezes, a gente consegue entrar na universidade, mas não consegue permanecer por falta de dinheiro. Já hospedei orientandos na minha casa para incentivá-los a permanecer no curso. O desafio é criar ações afirmativas que vão além da ação afirmativa”, diz.

Há um ano em São Paulo, Lena leciona no curso de direito da Faculdade Zumbi dos Palmares e é coordenadora geral da coordenação de ações afirmativas da Secretaria Municipal de Promoção da Igualdade Racial de São Paulo, a SMPIR. “Acabamos de ter sancionada a lei de cotas para negros em concursos públicos e cargos comissionados no município, isso é um feito para a comunidade afropaulistana. Aos poucos vamos construindo uma nova história de oportunidades. Nós, negros, queremos e precisamos ser protagonistas de nossas histórias, de nossas esperanças”.

Quando questionada sobre as áfricas que lhe habitam, Lena fica em silêncio e surpresa com a pergunta. Mas sua resposta não tarda: “A África da responsabilidade com os meus ancestrais. Quando li “Negras Raízes “(Alex Haley) lembro-me de não conseguir sair do capítulo que descrevia as memórias do navio negreiro. Eu chorava e paralisei diante daquela narrativa. Hoje, a África que me habita é aquela que honra os ancestrais e sabe que não está sozinha”, conclui.

 
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