No último dia 15 de março participei, em Salvador, da abertura da Conferência Internacional intitulada “Poder e Dinheiro na Era do Tráfico”, apoiada pela Fundação Pedro Calmon/Secult e coordenada pelo Profº João José Reis (UFBA) - um dos mais conceituados especialistas no tema da escravidão.

A conferência de abertura, realizada pelo Professor Luiz Felipe D’Alencastro (Sorbonne), foi magnífica e esclarecedora. Ele apresentou de forma didática o lucrativo negócio da escravidão para a elite brasileira, a complexidade com que ele se desenvolveu e o papel estratégico que o Brasil desempenhou no cenário internacional, após a Inglaterra proibir e reprimir o tráfico negreiro em sua área de influência.

Ou seja, deixou claro que o Brasil e sua elite econômica cresceu, enriqueceu e se desenvolveu, durante longo tempo, graças ao comércio e o tráfico de seres humanos,  e que continua sendo o filho pródigo da iniquidade quando nos referimos à Economia, notadamente quando ela é vinculada ao desenvolvimento humano.

Afirmo isto, pois no último artigo que escrevi neste espaço, falei sobre a necessidade do movimento negro brasileiro ter uma agenda clara, que unificasse seus variados segmentos e ampliasse seu alcance, em particular junto à juventude.

Aparentemente, o tema da Conferência é algo do passado e superado pela história, mas lamentavelmente não o é. O que vivemos hoje, no tocante à desigualdade econômica e racial é - em grande parte - decorrente desta prática histórica da elite brasileira em considerar que o capital humano pode ser absolutamente descartável, submetido a formas cruéis de exploração, sem que haja qualquer sinal de sensibilidade.

É o poder do dinheiro, mais uma vez sobrepondo-se a tudo e a todos, na era do tráfico dos direitos: sejam humanos, trabalhistas ou previdenciários. Afinal, este é o grande legado da escravidão brasileira - gente que não é gente como a gente, não merece ser tratado como gente.

Neste sentido, o primeiro ponto que precisamos acordar e fazer valer, é o que concerne à juventude negra. Não apenas pelo resultado, agora confirmado na CPI sobre a tragédia do extermínio pela qual essa juventude vem passando, mas, sobretudo, pelo seu direito à vida, a um futuro decente que todos nós merecemos.

Não podemos permitir que esses jovens continuem sendo tratados como não gente, expostos a toda sorte de violências, exclusões e iniquidades. Assegurar que eles tenham uma educação de qualidade, atenção na infância, alimentação adequada e acolhimento familiar, é garantir que o Brasil tenha um futuro de igualdade. E isto não é favor, nem caridade, isto é direitos humanos na veia.

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Para tanto, precisamos conquistar aliados, sensibilizar a sociedade e exigir do estado que ele cumpra a Constituição. Mais que isto, temos que lutar e assegurar que as escolas públicas sejam de tempo integral, possuam espaços adequados e de qualidade, professores qualificados e bem remunerados, bibliotecas em funcionamento e alimentação garantida.

Precisamos, ainda, que a lei 10.639, que introduziu o ensino da história e da cultura de origem africana na grade curricular do ensino fundamental seja ministrada a todas as crianças e adolescentes e o respeito à diversidade, seja ela de que tipo for - cultural, religiosa, social, racial ou de gênero -  deixe de ser um discurso retórico e transforme-se em prática.

Enfim, precisamos fazer da nossa juventude, em particular da juventude negra, o nosso projeto de Brasil.

Toca a zabumba que a terra é nossa!                    

 

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Zulu Araujo

Foi Presidente da Fundação Palmares, atualmente é presidente da Fundação Pedro Calmon - Secretaria de Cultura do Estado da Bahia.

 

 

 

*Este artigo reflete as opiniões do autor. A Revista Raça não se responsabiliza e não pode ser responsabilizada pelos conceitos ou opiniões de nossos colunistas

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