HBO estreia filme que presta homenagem à mulher que ajudou a desenvolver terapias para combater a pólio, o câncer e a aids

Rose Byrne e Oprah Winfrey no longa 'A Vida Imortal de Henrietta Lacks' HBO

Rose Byrne e Oprah Winfrey no longa 'A Vida Imortal de Henrietta Lacks' HBO

 

A medicina deve muito a Henrietta Lacks. Era uma mulher única. Morreu de câncer há mais de seis décadas, aos 30 anos. Suas células continuaram vivas e se transformaram na ferramenta biológica que ajudou a desenvolver terapias para combater a poliomielite, o câncer e a aids. Mas a identidade dessa lavradora de tabaco ficou enterrada com a sigla das duas primeiras letras de seu nome e seu sobrenome. Oprah Winfrey agora faz justiça com A Vida Imortal de Henrietta Lacks. O melodrama dirigido por George Wolfe, que estreou na HBO na madrugada do ultimo sábado(22) para domingo(23), é a adaptação do livro homônimo publicado por Rebecca Skloot em 2010 (Companhia das Letras). Jornalista especializada em ciência, Skloot revelou a origem dessas células com capacidade excepcional de se reproduzir fora do corpo humano.

A história remonta a 1951, no hospital Johns Hopkins de Baltimore – cidade onde também começou a carreira de Oprah. “Percorri as ruas onde sua família mora, buscando notícias. Nem sei quantas vezes estive no hospital. Também fui à igreja, mas nunca escutei nada sobre essa mulher”, afirma. “Soube da história porque alguém da minha equipe falou do livro.” Winfrey faz o papel de Débora, a filha mais velha de Henrietta Lacks. Os familiares nunca foram informados sobre a coleta de amostras de tecidos do tumor em seu colo uterino. E, claro, os laboratórios farmacêuticos nunca lhes deram uma compensação pelos avanços que revolucionaram a medicina. A comunidade negra, por outro lado, tinha medo na época de que os cientistas usassem seus integrantes como porquinhos-da-índia.

A história da ciência fica então num segundo plano, e a trama se concentra no périplo de uma mulher negra que tenta conhecer quem foi sua mãe. “Ninguém tem células que revolucionam a medicina moderna”, afirma Wolfe, “mas todos queremos saber quem nos criou.” Débora, diz Oprah, “precisava saber de onde vinha para definir sua identidade”. Rebecca Skloot, interpretada por Rose Byrne, foi ao seu encontro. O filme mostra a persistência da jornalista para ganhar sua confiança. Precisou demonstrar que não era outra pessoa branca que tentava se aproveitar. Oprah conta que a família queria manter a história enterrada, “ou porque a recordação era dolorosa, ou porque simplesmente não era tão importante”.

O grande desafio do diretor foi concentrar em 90 minutos uma história complexa e emotiva, que mistura as conquistas da ciência com questões raciais, religiosas, culturais e éticas. Poderia ter seguido qualquer rumo. A solução, explica, foi fazer um filme em que o público aprende com Débora à medida que ela descobre coisas sobre sua mãe e a ciência. “Ela organiza”, explica Wolfe. “Quando você conhece sua própria história, pode delimitá-la. Do contrário, fica preso pela definição que as outras pessoas criam sobre você.” Esse processo de descoberta alimenta a força de sua personalidade. E a intensidade alcançada pela relação com Rebecca o transforma numa aventura de duas pessoas. “Creio que o filme levará as pessoas a se fazerem muitas perguntas”, diz Winfrey.

E não só sobre a ciência, mas também sobre a questão racial. “Somos humanos”, afirma. “Se não fosse assim, teria sido outra forma de discriminação.” E aproveita para anunciar: “Sim, aqui estamos a negra Oprah e o negro George contando a história de uma mulher negra que ninguém sabia quem era e cujo filme estará na HBO. Isso, para mim, é um grande avanço.”

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