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Sueli Carneiro: vanguarda e referência no feminismo

  • Autor: Mauricio Pestana

  • Publicado em: 29/08/2018

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Nos 21 anos de revista raça, já passaram por páginas pretas ex-presidentes de república, ativistas, intelectuais, artistas e também pessoas comuns, brancos e negros, que têm contribuído na luta pela igualdade racial no Brasil e no mundo. na edição especial de número 200 não poderíamos deixar de trazer alguém que simbolizasse essa luta por estar há mais de 40 anos enfrentando o racismo e o machismo. fundou uma das organizações mais respeitadas do mundo nessa questão, o Geledés - instituto da mulher negra, socióloga, doutora em educação pela USP - Universidade de São Paulo, Sueli carneiro é nossa entrevistada deste número especial.

30 anos de Geledés: o que dizer sobre os 30 anos de Geledés?
Sueli Carneiro: Passou como um passe de mágica. Nós fundadoras nos perguntamos “como foi que chegamos até aqui?’’ E eu juro que a gente não sabe direito. Tivemos momentos difíceis ao longo desses 30 anos que a gente não sabia se conseguiríamos atravessar, mas a maior parte do tempo foi extremamente gratificante, e hoje, quando a gente vê como é a recepção que as pessoas têm do trabalho realizado no passado e também no presente e como, principalmente, as novas gerações valorizam os projetos e os conteúdos que a gente vem produzindo, você fica com aquela sensação de valeu.

O Brasil e o mundo mudaram muito nesses 30 anos. O que mudou no feminismo, em especial no feminismo negro?
Sueli Carneiro: Organizações como o Geledés e outras anteriores ou posteriores à Geledés emergiram em função de uma carência, de uma lacuna que vem tanto pelo feminismo branco tradicional, quanto na abordagem do movimento negro. Eu sempre insisto em dizer que nós emergimos da insuficiência do feminismo em pensar particularidades raciais e culturais entre as mulheres, e da insuficiência do movimento negro em pensar contradições de gênero.

Como assim?
Havia temas que nessa época não eram preocupações significativas do movimento negro, questões como, por exemplo, saúde da população negra que é todo um campo de conhecimento, de intervenção política e de luta antirracista e que as mulheres negras aportaram para o movimento. As mulheres negras mostraram que havia uma prevalência de doenças sobre a população negra oriundas das condições de vida e do próprio racismo na medida em que havia doenças genéticas que não eram trabalhadas, ou seja, racialidade definia mortalidade, e isso é uma condição inegável que foram as mulheres negras que trouxeram para o debate da questão racial, mostrando ainda outra dimensão sobre o genocídio.

Não somente pessoas negras morrem por mortes evitáveis - que se constituem pela falta de políticas públicas que reconheçam as particularidades daquela população - ou pela falta de qualidade de vida, como por, exemplo para os portadores de anemia falciforme. Temas como as questões relativas à maternidade e à esterilização massiva que o movimento feminista também trouxe, além das diferenças de atenção que pessoas negras e brancas recebem no sistema público de saúde que descrevem as facetas do racismo institucional.

Existe um vasto campo que se abriu como um campo de pesquisa e atuação política e de intervenção de políticas públicas que acaba culminando com um programa nacional de saúde para a população negra que é uma política pública que foi forjada no bojo desse ativismo. No que se refere ao feminismo branco e tradicional, eu escrevi há muito tempo um artigo que as mulheres negras estavam enegrecendo o feminismo, pois estávamos trazendo para o debate feminista um rol de questões que alcançam todas as dimensões do ser mulher.

Apesar dos avanços a senhora não acha também que o racismo recrudesceu?
O que eu tenho dito é que a minha geração se ocupou nos últimos 40, 50 anos em questionar o mito da democracia racial. Eu acho que nós fomos bem-sucedidos na tarefa de colocar esse mito em cheque. Não fizemos só isso, nós pautamos os “remédios” para a construção de soluções para equalizar, o que sempre ameaça privilégios. O momento mais paradigmático desse processo é o debate sobre as cotas, pois ali, concretamente, a branquitude se sentiu realmente ameaçada, num dos redutos fundamentais, dentro do qual ela tinha assegurado sua mobilidade social.

A senhora diria que a polêmica em torno das cotas nas universidades foi a primeira reação?
Não há dúvida, a universidade é o maior ativo para se garantir a mobilidade social no Brasil. Você pode ganhar na loteria, claro, mas o nível universitário permite um salto ao indivíduo, sobretudo quando o diploma vem de universidades de ponta e com maior status na sociedade brasileira. O debate das cotas obrigou a branquitude a se organizar para manter seus interesses estratégicos, pois uma melhor formação garante melhores postos no mercado de trabalho. Percebemos aqui pela primeira vez setores racistas se organizando para combater uma proposição. Nisso estavam setores da mídia hegemônica na formação da opinião pública. Entraram interesses econômicos no campo da educação e se envolveram nesse combate às cotas, pesquisadores que sempre estudaram negros e que de repente quando negros deixam de ser objeto de estudo para se tornarem sujeitos de direito viram um problema que poderia ameaçar a República; então, a gente assistiu pela primeira vez a um conglomerado de atores e grupos hegemônicos se organizando para detonar a política de cotas, e foi exaustivo esse bombardeio.

A senhora diria então, que pela primeira vez poderíamos visualizar quem realmente no país se opunha ao avanço nos espaços de poder hegemônico branco?
Sim, foi o primeiro momento de demarcação de que algo estava acontecendo na sociedade brasileira e que era intolerável para a hegemonia branca, porque estava começando a existir um deslocamento de lugares socialmente definidos para negros e brancos, e é evidente que junto com isso fez emergir uma nova geração de negros que estão em outros espaços. Só a presença dos negros nas universidades aumentou de forma extraordinária frente aos 80 anos de inércia no século XX. Esse fenômeno, faz emergir um questionamento sobre o mercado de trabalho e promove novos sujeitos políticos negros, sobretudo mulheres negras, afirmando seu lugar de fala e fazendo a disputa pelo imaginário, por poder, por visibilidade, e esse movimento rompeu o pacto que configurava as relações raciais no Brasil, ou seja, o mito da democracia racial.

Ou seja, o velho pacto que deu sustentação ao mito de democracia racial onde a elite branca finge que não discrimina e os negros fingem que não são discriminados foi quebrado.
Sueli Carneiro: Exatamente. Foi exatamente isso que aconteceu. Havia um acordo tácito e nós rompemos com esse acordo. A nossa resistência e nossa luta permitiu aos brancos entenderem que não era mais preciso manter qualquer tipo de etiqueta. Agora os brancos nos querem mostrar qual é a cara disso, e é o que assistimos hoje: manifestações cada vez mais violentas, matanças indiscriminadas, conflitos de racismo explícito. Não vivemos mais em uma sociedade onde o racismo é sutil e hipócrita, não, agora o racismo é violento e impiedoso, avançando a passos largos para práticas fascistas. Eu acho que isso implica em um desafio enorme para a geração atual e as futuras, porque a resistência vai ser mais árdua, mas necessária e terá de ser mais contundente, inclusive.

Brasil, Estados Unidos e África do Sul, onde o racismo e mais forte e perceptível?
Antes da Conferência de Durban foi feita uma série de análises comparativas entre Brasil, Estados Unidos e África do Sul e uma das coisas mais chocantes que apareceram nesse período foi o fato de os índices educacionais dos negros sul-africanos, após o apartheid, serem melhores que os índices educacionais dos negros brasileiros. Então, em determinados aspectos, nossa situação é pior que a dos sul-africanos e essa diferença é tão sintomática que você pode ver os quadros que mesmo depois do apartheid foram formados na África do Sul. A contenção da população negra aqui, sobretudo na dificuldade de instrumentalização pela educação, tem impedido no Brasil a formação de uma produção de quadros intelectuais e políticos com o tamanho da possibilidade de uma população tão grande e com tanta necessidade de resistência. Sob certos aspectos, a eficácia do racismo brasileiro é muito maior que a do racismo sul-africano, por ter mantido a população negra num patamar de opressão superior, quase asfixiada até o advento de algumas ações afirmativas que hoje estão sendo destruídas.

Como a senhora analisa a infindável crise política brasileira e quais os reflexos para nós negros e negras?
Tenho me preocupado com a questão da democracia. Nos negros e negras, uma experiência democrática que se consolidasse plenamente. Mesmo nos melhores momentos da democracia, nós ainda ficamos aquém de poder usufruir o pleno gozo dos direitos fundamentais que deveríamos como seres humanos que somos. Qualquer risco da democracia ameaça de maneira mais perversa nossa população. Estamos no dilema de um esforço necessário para o reestabelecimento de um processo democrático e de todas as institucionalidades que o legitimam. Tudo que for em sentido contrário agrava nossas condições de vida. Tudo o que dialoga com impunidade, violência e outras mazelas sociais recai sobre nós de forma desmedida; então, o primeiro esforço que temos que fazer é no sentido de lutar pelo pleno estado de direito. Portanto, com esta convicção eu acredito que devemos marchar ao lado daquilo que nos conduza à defesa de um verdadeiro estado de direito.

Para encerrar, gostaria que você pautasse as perspectivas de Geledés para os próximos 30 anos.
Tem gente nova chegando, felizmente, para nos dar a perspectiva de que podem, após essa geração fundadora. Eu espero que essa geração que vai herdar essa instituição aprofunde o nosso compromisso com a defesa dos direitos humanos, pela igualdade de gênero e de raça, por uma sociedade justa e igualitária, e que todas as pessoas, sejam homens, mulheres, negros e brancos, possam, igualmente, afirmar e desenvolver suas potencialidades humanas.

 

 

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