Consciência para juventude negra baiana

Ao tempo em que completa 25 anos de atuação, o Instituto Cultural Steve Biko lega à sociedade baiana uma pedagogia genuína, fruto da criatividade, sensibilidade e empatia da militância do movimento negro na Bahia. O OGUNTEC, programa de fomento à Ciência e Tecnologia para jovens negros e negras de escolas públicas, criado há 15 anos, é um bom exemplo das inovações educacionais desenvolvidas pelo Instituto.

O programa, cujo nome faz referência ao orixá OGUM, divindade de matriz africana associada ao domínio das ferramentas e da Tecnologia, surgiu como resposta à baixa presença de negros e negras em Ciências Exatas nas Universidades baianas. Vem também da compreensão do impacto deste processo de exclusão na empregabilidade da juventude negra na sociedade contemporânea. Esta que é, cada vez mais, seletiva e baseada em conteúdos tecnológicos.

 

O OGUNTEC é um marco para a educação baiana, não só por chamar atenção para a demanda da presença de jovens negros nestas áreas, mas também por desvelar e atuar sobre importantes lacunas e limites do ensino tradicional das Ciências que é ofertado aos estudantes de escolas públicas na Bahia. Ensino esse que, ao não se opor à opressão que o eurocentrismo produz (e por isso o fortalece), ceifa talentos destes jovens, que passam toda a sua vida escolar sem conhecer a história de referências negras nas ciências. Tornam-se sujeitos passivos de narrativas históricas que posicionam europeus como a única referência de racionalidade e capacidade para o desenvolvimento científico e tecnológico.

 

Daí se compreende, dentre outros aspectos, a relevância dos caminhos abertos pela experiência pedagógica do OGUNTEC e pelo legado do Instituto Steve Biko nisso. Eles se apresentam como um contraponto ao domínio desta “história única”, eurocêntrica, oportunizando aos estudantes o conhecimento do importante papel de povos africanos, como os egípcios, que também contribuíram para a concepção do conjunto de conhecimentos apropriados por toda a humanidade.

A consciência desse legado, o reconhecimento e enfrentamento dos obstáculos postos pelo racismo ao desenvolvimento das capacidades dos estudantes no processo de ensino das Ciências, têm sido determinantes no alcance de bons resultados obtidos pelo programa, identificados a partir da elevação da estima dos educandos e pelas aprovações nos vestibulares das temidas áreas das Ciências Exatas.

 

Viva ao Instituto Cultural Steve Biko! Viva ao legado dos militantes negros e negras que têm contribuído para que a sociedade brasileira, como um todo, supere, cada vez mais, os limites postos pelo eurocentrismo à construção de sua identidade e à busca de seu próprio caminho de desenvolvimento. Biko Vive!

 

 

Lázaro Passos Cunha
Diretor de Projetos do Instituto Steve Biko

 

 

 

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