Oswaldo Faustino escreve em sua coluna sobre a atriz Léa Garcia. Confira

 

TEXTO: Oswaldo Faustino | FOTOS: Divulgação/Reprodução | Adaptação web: David Pereira

A atriz Léa Garcia | FOTO: Divulgação/Reprodução

A atriz Léa Garcia | FOTO: Divulgação/Reprodução

Filmes não envelhecem. Apesar de o tempo passar e deixar marcas profundas em seus atores, diretores e demais creditados na ficha técnica, ali na tela eles se perpetuam com uma imagem que sempre nos fará lembrá-los.

Esta foi a minha conclusão ao assistir pela vigésima vez ao primeiro filme de ficção dirigido pelo documentarista Joel Zito Araújo, Filhas do Vento, de 2004. E, pela primeira vez, depois de me encantar, como nas demais, com a história, interpretações e imagens, desviei o foco de meu olhar da incomparável atriz Ruth de Souza, para dar mais atenção à Léa Garcia. A Maria D’Ajuda, ou Ju, interpretada por ela — e na juventude, por Thalma de Freitas — é uma síntese da história da grande maioria de mulheres brasileiras, que assumem a missão de viver pelo outro e não se dão ao direito de serem felizes. Mesmo que amem muito e gerem filhos, em vários relacionamentos. A pressioná-la estão a moral cristã, marca principal da sociedade mineira, o extremo rigor do pai, que foi abandonado pela esposa, o Zé das Bicicletas, interpretado por Milton Gonçalves, e a reação à ousadia de se dar ao direito a sonhar, da irmã Cida (Thais Araújo/Ruth de Souza), que quer ser atriz. Acusada de estar dando em cima do namorado de Ju, Cida é expulsa de casa e ruma para o Rio de Janeiro, onde vai trabalhar em cinema e em telenovelas, sem conquistar reconhecimento. As irmãs só se reencontram após a morte de Zé das Bicicletas, quase 45 anos depois e, ainda rancorosas, constatam a sina de ambas, marcada pela solidão, mesmo em meio de família numerosa.

A ARTE NÃO IMITA A VIDA

Talvez essa história nada tenha a ver com a de Léa Lucas Garcia de Aguiar, pisciana nascida no Rio de Janeiro, em 1933, cuja mãe morreu quando ela tinha onze anos. Ela foi morar com a avó, governanta na mansão de uma rica família. Assim, pode estudar e sonhar em ser escritora. Cinco anos depois, conheceu o fundador do Teatro Experimental do Negro, Abdias do Nascimento, de quem se tornaria a terceira esposa e, em 1952, ingressou nesse que foi a primeira grande experiência teatral coletiva negra brasileira, em montagens históricas como Orfeu da Conceição, de Vinicius de Moraes, apresentada no Teatro Municipal do Rio de Janeiro; Perdoa-me por me traíres, de Nelson Rodrigues; e Sortilégio, do próprio Abdias, que também ocupou o palco do Teatro Municipal paulistano.

Léa Garcia na novela "O clone" | FOTO: Divulgação/Reprodução

Léa Garcia na novela "O clone" | FOTO: Divulgação/Reprodução

Seguiram-se dezenas de outros espetáculos teatrais e o filme Orfeu do Carnaval, de Marcel Camus (1959), Oscar e Globo de Ouro de Melhor Filme em Língua Estrangeira, e Palma de Ouro no Festival de Cannes, quando Léa foi indicada a Melhor Atriz, prêmio dado, naquele ano, a Simone Signoret, por Almas em Leilão. Depois disso, se tornou comum ver Léa Garcia em cinema ou telenovela, com destaque para sua interpretação de Rosa, a mucama que atraiu muito ódio das telespectadoras, considerada uma das maiores vilãs da teledramaturgia brasileira, em A Escrava Isaura, de 1976, novela exportada para quase 80 países. Aí vejo na ficha técnica de Filhas do Vento, que o filme ganhou vários prêmios em diversos festivais, entre eles, o de Melhor Atriz tanto para Ruth de Souza quanto para Léa Garcia.

Por que será que não me surpreendi? Quero ainda saborear muito mais do talento dessa atriz negra que, como Ruth e Milton, jamais perdeu uma oportunidade para denunciar o racismo em nosso País e exigir mudanças. Vida longa à estrela Léa!
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