Conheça a trajetória de Dona Inah, a Dama do samba paulista

 

TEXTO: Maitê Freitas | FOTOS: Arquivo Pessoal/Divulgação | Adaptação web: David Pereira

Dona Inah, a dama do samba paulista | FOTO: Arquivo pessoal/Divulgação

Dona Inah, a dama do samba paulista | FOTO: Arquivo pessoal/Divulgação

 

“Eu canto chorando”. Com esta frase, o encontro que teve como trilha de fundo chorinho ao vivo, tocado pelos músicos que a acompanham, se dava por encerrado. Taurina, nascida em 17 de maio de 1935 na cidade paulista de Araras, batizada por Ignêz Francisco da Silva, mais tarde se transformaria num dos ícones do samba e seria conhecida por Dona Inah. No nome artístico, uma homenagem às origens e à avó materna. “Inah significa indígena. O meu índio me protege”, revela a cantora.

Conheça a trajetória de Dona Inah, a Dama do Samba Paulista.

Filha de trompetista, aprendeu com o pai os primeiros acordes de violão que lhe deram a educação musical. Quando criança trabalhou como lavadeira ao lado de sua mãe. “Lavei roupa na beira do rio. Fui cozinheira por doze anos em casa de família e me aposentei como faxineira. Sabe o banheiro feminino da estação em São Caetano? Limpei durante muitos anos aquele banheiro, e à noite cantava nos bares”, relembra.

Sem parodiar o clássico de Geraldo Filme, Batuque de Pirapora, quando criança, Dona Inah
frequentava os eventos religiosos da cidade. “Um dia, eu perguntei ao padre como fazia pra integrar o grupo ‘Filhas da Virgem Maria’, ele foi logo dizendo ‘Maria nunca teve filha preta’”.

Mulher de origem pobre e negra, a trajetória de Dona Inah traz aspectos da discriminação na música brasileira. Há momentos que se confunde com as histórias de Clementina de Jesus, ou de Jovelina Pérola Negra... “fui muito discriminada, mesmo sendo a cantora da orquestra da cidade que nasci.”

Com uma voz inconfundível, o timbre rasgado e caboclo de Dona Inah revela a força de quem, aos nove anos, recebeu seu primeiro prêmio como cantora na cidade de Araras e foi a primeira negra a cantar nas noites do Araras Clubes, espaço de diversão da elite local. Aos 69, ganhou o Prêmio Tim da Musica Brasileira, na categoria “revelação” com o disco “Divino Samba Meu”, dando-lhe a projeção merecida no cenário da música brasileira.

Ao longo da trajetória, Dona Inah cantou de valsas a boleros, e hoje coleciona uma gama de prêmios como cantora. Ao ser questionada sobre a dificuldade de se impor no meio musical onde os homens têm mais espaço, Dona Inah enfatiza: “tem que ser cara de pau. Uma vez fiquei parada na frente da sede da orquestra regida por Tobias Troisi, foram horas esperando até que alguém abrisse a porta. Quando abriram, saiu um homem e perguntou o que eu queria, respondi sem nenhuma dúvida: quero trabalhar, sou cantora. O tal homem riu da minha cara e me deixou falando sozinha. Depois de um tempo voltou acompanhado pelo Tobias, que quis saber o que eu estava fazendo ali parada. O tal homem que perguntou se eu já tinha bebido todas e disse ‘como uma pessoa com cara de lavadeira ousa dizer que está aqui para cantar?’. O Tobias me convidou para entrar e pediu que eu escolhesse vinte e três canções, escolhi e cantei acompanhada da orquestra durante uma hora, cantei de Exaltação à Bahia a Aquarela Mineira”.

Enquanto os bandolins e cavaquinhos ecoavam na roda de chorinho, Dona Inah, que teve sete filhos, mas ao longo da vida perdeu quatro, relembrou com tristeza o falecimento de Dalma, que ocorreu durante um concurso que elegeria a rainha do carnaval de Mauá. “Quando cheguei, ela já tinha ido ao hospital, o erro humano e descaso público tiraram a minha filha de mim. Trago essa dor comigo”.

 

"Agradeço a Deus e todos os meus amigos leais, por isso vou cantando, chorar jamais..." Trecho da música "Chorar Jamais" de Dona Inah | FOTO: Arquivo Pessoal/Divulgação

"Agradeço a Deus e todos os meus amigos leais, por isso vou cantando, chorar jamais..." Trecho da música "Chorar Jamais" de Dona Inah | FOTO: Arquivo Pessoal/Divulgação

 

O samba deu a Dona Inah uma morada confortável num bairro nobre da metrópole. “Sai da periferia de Mauá e hoje moro num apartamento que tem uma varanda enorme, onde planto minhas orquídeas e todas as plantas que me dão. Se eu pudesse, teria uma mudinha de cada planta que existe”. Embora a carreira da cantora hoje tenha alcançado a estabilidade e o reconhecimento desejado por muitos artistas em inicio de carreira, ou até mesmo da velha-guarda do samba, a anciã reitera que foi preciso lutar muito. “Bati em muitas portas em busca de espaço para cantar, bateram muitas portas na minha cara. Apanhei tanto que me fiz cantora”. A elegância e simplicidade de Dona Inah marcam sua a personalidade e fibra da mulher que costura as próprias roupas e figurinos dos shows. “Eu quebro a cabeça, mas consigo”, diz, exibindo o xale marrom, às gargalhadas.

Em São Paulo, é injusto se falar em samba sem mencionar a cantora que representou o país no Ano Brasil na França, onde foi considerada pelo jornal Liberatión a “Rainha do Samba de São Paulo”. “Sempre disse que conheceria o mundo. Em 2005, estava no Theatro Municipal cantando no Fórum Mundial da Cultura e recebi o convite para participar de festival na França, e de lá fui para Turquia, onde fui aplaudida por quinze mil pessoas”, orgulha-se. Na semana em que São Paulo celebrou e nomeou o samba como patrimônio imaterial da cidade, a cantora pisou nos palcos do Theatro Municipal pela segunda vez para participar da festa que reuniu a velha-guarda do samba paulista. Prestes a seguir turnê com o terceiro disco, “Fonte de Emoção”, gravado em Cuba com os músicos do Buena Vista Social Clube, Dona Inah diz ter se reencontrado na terra afro-latina. “Eu acho que tenho alma cubana”. Num repertório que incluiu mais de 100 boleros, foram gravadas doze canções, que variam entre samba, chorinho e bolero.

Se em 2002 Dona Inah prestava homenagem à Clementina de Jesus, no show “Rainha Quelé”, dirigido pelo produtor musical Heron Coelho, hoje recebe reverência com a filmagem do documentário “Que Cantora a Vida me Fez”, dirigido por Patrícia Francisco. “Quero só ver. Minha neta me imita quando eu era criança... até canta a música que eu cantei aos 8 anos”, conta.

A pele delicada e marcada por linhas profundas do tempo não escondem a fragilidade de Dona Inah, que com uma voz ímpar sabe o valor que tem para o samba. “O samba me dá vida, alegria. Ao samba, eu dei a minha vida”. Seu timbre rasgado abre os caminhos para que o samba ganhe o mundo sem perder suas raízes.

 

 

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