Há dez anos, calou-se a voz de um cantor cujo nome artístico refletia os mais de 50 anos de carreira, entre shows em boates, bailes, eventos noturnos e em gravações madrugadas adentro. Conheça a história de Noite Ilustrada

 

TEXTO: Oswaldo Faustino | Adaptação web: David Pereira

 

Conheça a história de Noite Ilustrada

Conheça a história de Noite Ilustrada

 

Uma mensagem do amigo Gerdal José de Paulame trouxe lembranças de um baile no Clube 13 de Maio, de Piracicaba, nos anos 70, cuja atração principal era o cantor Noite Ilustrada. Recepcionado por Dona Leleza, diretora daquele clube centenário, o artista teve dificuldade para chegar ao camarim, tal o número de pessoas a abordá-lo, abraçando epedindo autógrafos. Um astro, em momento de glória.

Ao longo da carreira, Mário Sousa Marques Filho – nome verdadeiro jamais revelado ao público – viveu muitos momentos gloriosos, como aquele, mas não faltaram quedas, que o colocaram quase em total ostracismo. Mesmo assim, até poucos dias antes de partir definitivamente, em julho de 2003, insistia em repetir os versos de seu primeiro sucesso, de 1963: “Levanta, sacode a poeira e dá volta por cima”. E o sucesso foi tanto que só muitos anos depois o público começou a associar esse samba com seu autor, o biólogo boêmio Paulo Vanzolini.

DO INTERNATO AO PALCO

A história desse personagem se iniciou 35 anos antes, em 1928, na cidade mineira de Pirapetinga, na Zona da Mata, de onde foi levado ainda pequeno para a casa da avó, em Além Paraíba, pois a mãe, separada do marido, havia se mudado para o Rio de Janeiro para trabalhar de empregada doméstica. Aos sete anos, o pai foi buscá-lo para também levá-lo a então Capital Federal, onde trabalhava como motorista dos executivos em uma multinacionale, nas horas vagas, dava aulas de inglês. Sem condições de cuidar da criança, ele a colocou num colégio interno, o Instituto Getúlio Vargas, em Bonsucesso, onde Mário permaneceu até os 16 anos. Pelo menos dois de seus colegas de internato se tornaram artistas como ele: Nelson Martins dos Santos, o Nelsinho do Trombone, e Antônio Carlos Bernardes Gomes, o Mussum.

 

Noite Ilustrada, com Pelé e o cronista esportivo Odair Pimentel

Noite Ilustrada, com Pelé e o cronista esportivo Odair Pimentel

 

Foi no internato que a música entrou em sua vida. Aprendeu a tocar violão e criou suas primeiras composições. Em busca de trabalho, foi à Praça Tiradentes, o ponto dosmúsicos. Ali, foi contratado para acompanhar os cantores da caravana do humorista baiano Zé Trindade. Enquanto esperava no camarim, fazia palavras cruzadas na revista de variedades Noite Ilustrada e, ao ser avisado que era hora de entrar no palco, a dobrou e colocou no bolso do paletó. O humorista ia anunciá-lo, mas faz uma pausa. Esquecera onome do violonista. Olhou para ele, nos bastidores, viu a revista e anunciou; “Com vocês, Noite Ilustrada!”. A gracinha o deixou irritado, mas o apelido pegou.

Acompanhando, ao violão, os compositores da Portela, participou de uma apresentação em São Paulo, em 1955. Recebeu convite para trabalhar em casas noturnas e não retornou com o grupo. Assinou contrato com a Rádio Nacional e a TV Paulista e, três anos depois, gravou seu primeiro disco, mas teve de esperar mais cinco anos pela explosão de sucesso, com “Volta por Cima”. Uma das casas em que Noite Ilustrada trabalhou na noite paulista foi o Captain’s Bar, do Hotel Comodoro, onde conheceu Jorge Costa, seu parceiro em várias composições.

Foi ali que cantou pela primeira vez outro grande sucesso, “O neguinho e a senhorita”, do salgueirense Noel Rosa de Oliveira. Ilustrada foi um dos grandes intérpretes de composições de Ataulfo Alves, como “Meus tempos de criança”, “Laranja madura” e “Pois é”. Numa das quedas, foi trabalhar como motorista de caminhão de coleta de lixo, em São Paulo. Numa das voltas por cima, mudou-se para Recife, onde permaneceu, por dez anos, vivendo exclusivamente de música.

Ao retornar às terras paulistas, em 1994, foi morar no bucólico município de Atibaia, onde viveu momentos de boas recordações e serestas ao lado do caboclinho Sílvio Caldas. Dias antes de falecer, gravou um CD, cuja faixa-título, “Perfil de um Sambista” é composição do violeiro Adalto Santos. Ao partir, deixou dois discos inéditos: um tributoa Ataulfo Alves e outro a Lupicínio Rodrigues. Foi ou não foi uma boa maneira de dar adeus?

 

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