Saiba mais sobre a escravidão no Brasil

 

TEXTO: Amilton Pinheiro | FOTOS: Divulgação | Adaptação web: David Pereira

Capa do livro A política da escravidão no Império do Brasil 1826-1865 | FOTO: Divulgação

Capa do livro A política da escravidão no Império do Brasil 1826-1865 | FOTO: Divulgação

"Não havia outro meio de transportar aquela raça à América senão o tráfico.” “Sem a escravidão africana e o tráfico que a realizou, a América seria ainda hoje um vasto deserto.” Essas duas frases – uma clara defesa à manutenção da escravidão no Brasil – foram tiradas das cartas que o escritor José de Alencar publicou a partir de 1860 e reunidas na obra Ao imperador: novas cartas políticas de Erasmo. Tomar conhecimento que um dos maiores escritores do romantismo brasileiro defendia uma prática tão desumana causa espanto e indignação. Mas, segundo o historiador Tâmis Parron, autor do livro A política da escravidão no Império do Brasil 1826-1865 (Civilização Brasileira), esses pensamentos de Alencar não eram uma voz dissonante na época em que foram defendidos.

“Quando concebeu as polêmicas missivas, Alencar não estava sozinho. O contrário, filiara-se aos líderes históricos do Partido Conservador, um grupo de estadistas ou pessoalmente associados ao comércio negreiro, feito sob a forma de contrabando ou então descendentes diretos de ex-envolvidos da classe senhorial brasileira, mas, sobretudo, de sua fração mais poderosa, aquela que, de uma forma ou de outra, foi a grande responsável pela expansão e manutenção do cativeiro no Brasil durante o século 19: os cafeicultores e proprietários do Vale do Paraíba fluminense e paulista, bem como da Zona da Mata mineira”, esclarece Parron, cujo livro procura entender como o Brasil conseguiu a proeza de prolongar o tráfico de escravos entre 1831 até 1850, quando a Lei Eusébio de Queirós ratificou outra já existente e não cumprida.

Tâmis Parron, autor do livro A política da escravidão no Império do Brasil 1826-1865

Tâmis Parron, autor do livro A política da escravidão no Império do Brasil 1826-1865

Veja trechos da entrevista com o autor do livro "A política da escravidão no Império do Brasil", Tâmis Parron

Ao mesmo tempo em que o Estado direcionava que queria acabar com a escravidão no Brasil, cada vez mais se intensifi cava a expansão do cativeiro. A Lei Eusébio de Queirós, que proibia o tráfico de navios negreiros a partir de1850, não surtiu o efeito desejado?

Aí está o ponto: o Estado brasileiro não é um fenômeno histórico que permanece imutável no tempo. Seus fins e seus meios variavam conforme o quadro global do sistema-mundo oitocentista, a ação dos grupos políticos nacionais em ascensão, os interesses da classe proprietária e a resistência coletiva dos agentes populares. Muitos especialistas têm uma visão purista do Estado e da elite política imperiais. Dizem que eles eram antiescravistas e ficaram à espreita, de tocaia grande, esperando a primeira oportunidade para estourar os miolos da escravidão. Esparrela. As elites políticas lutaram pela preservação do trabalho forçado até o limite obsceno do impossível. São, portanto, responsáveis diretos, ao lado dos proprietários, pela expansão e preservação da escravidão negra, desde nossa independência até a Lei Rio Branco. A Lei Eusébio de Queirós, nesse sentido, não é antiescravista. Seu propósito era redefi nir a inserção do Brasil no sistema das relações internacionais dirigidas pela Grã-Bretanha. Em 1850, o Brasil fez uma demonologia do tráfico para melhor beatificar a escravidão.

Seu livro aborda algumas figuras importantes que protagonizam a questão do cativeiro no Brasil. Qual delas foi mais atuante para o fim da escravidão? E quem foi o grande vilão desse período da história?

No livro, eu me debrucei sobre os “vilões”, os conservadores escravistas. São os ACMs, os Renans Calheiros, os Romeus Tumas do século 19, gente graúda, defala grossa, de coturno alto. Os escravistas mais sisudões daquele tempo eramCunha Matos, Carneiro Leão (marquês de Paraná), Araújo Lima (visconde deOlinda), J. M. Pereira da Silva, Bernardo Pereira de Vasconcelos, Paulino José Soares de Souza e José de Alencar (o romancista).

Podemos atestar que o fim da escravidão no Brasil começou a partir de 1830, quando houve a abolição do tráfico internacional de escravos? 

Não. O fim da escravidão começou mais tarde e em outro lugar, quando as tropas republicanas dos EUA derrotaram as confederadas na batalha de Antietam (1862) e Abraham Lincoln (presidente dos Estados Unidos) emitiu a Proclamação de Emancipação dos Escravos. A partir dali, o sul não pôde ser admitido como Estado independente na Europa, mostrando ao Brasil e à Espanha a inviabilidade de um Estado plenamente escravista na ordem mundial oitocentista. Dali para frente, não podiam cochilar: ou emancipavam ou sofreriam para manter a ordem social interna e a posição internacional.

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