O colunista da Raça Brasil, Moisés da Rocha escreve sobre a eternização do samba. Confira

 

TEXTO: Moisés da Rocha | FOTO: Divulgação | Adaptação web: David Pereira

O colunista da Revista Raça Brasil | FOTO: Divulgação

O colunista da Revista Raça Brasil | FOTO: Divulgação

Antigamente, era muito comum a gente simbolizar uma determinada idade, tal como idade da razão, idade do lobo, etc. Seja lá qual for a idade que o mundo da música está atravessando, o fato é que, em paralelo a algumas perdas jovens do show business internacional, o mundo brasileiro das artes vem perdendo alguns dos seus mais respeitáveis valores. De repente, as emissoras que há muito tempo não estavam nem aí para os verdadeiros artistas da nossa MPB, tocam várias músicas num só dia, citando até o nome e parte dos dados biográficos. É quando o ouvinte já pode ficar atento, pois o referido artista já era. E, claro, jamais terá suas músicas executadas novamente naquela mesma rádio ou TV. Aliás, isso me fez lembrar de uma determinada diretoria de rádio que se gabava de ser a veiculadora da verdadeira música popular, que se arvorou em mudar a linha da programação, passando a tocar somente músicas pretensamente dirigidas aos jovens.

Para tanto, uma das determinações era que não fosse tocada nenhuma canção de artista “velho” ou falecido. Não deu em nada! Nesses últimos tempos, perdemos as antológicas intérpretes Zezé Gonzaga, Ademilde Fonseca, Isaurinha Garcia, o maestro dos grandes musicais da TV Record, Cyro Pereira, o contrabaixista Luiz Chaves (ex-Zimbo Trio) e, depois, seu irmão, também contrabaixista, Sebastião Chaves, o Sabá (ex-Jongo Trio e Dick Farney Trio). Perdemos Chico Anísio, o “homem de mil e uma faces”, que além do seu refinado humor, nos deixou sambas como o “Hino ao Músico”, feito em parceria com o também humorista Chocolate, da antiga Praça da Alegria.

Outro sucesso, Rio Antigo, em parceria com Nonato Buzar, gravação na qual demonstra toda sua versatilidade cantando ao lado de Mussum. Severino Araújo, fundador e líder da mais longeva orquestra ainda em atividade, a Tabajara, é mais um que se foi. Uma das perdas bastante lamentadas foi a do “Magro”, que além de líder do MPB-4, era um grande arranjador. Renatinho Partideiro, Emílio Santiago, Luiz Carlos da Vila, enfim, a lista é imensa.

A verdade é que, mesmo com as perdas, que provocam tanto lamentos e lágrimas como boas lembranças de momentos de muita alegria, continuam surgindo inúmeros talentos no mundo do samba. É prova inequívoca de que a semente lançada por essas resistências culturais estão dando frutos.

Nesses últimos anos, estamos comemorando os setenta anos de vários artistas famosos, em plena atividade e em franca produção, mas, o mais alentador, é a infinidade de jovens músicos e intérpretes que vêm abraçando a verdadeira música popular brasileira, contrapondo-se ao modismo ditado pela mídia.

Quase ao mesmo tempo em que a tecnologia imortaliza os incomparáveis João Nogueira e Martinho da Vila através do Sambabook, no Rio de Janeiro, jovens artistas da periferia paulistana (São Mateus e Santo Amaro) formam o já internacional Quinteto em Branco e Preto, descoberto pela madrinha dosamba, Beth Carvalho, e eleito o melhor grupo de samba no Prêmio da Música Brasileira. O trabalho mais recente do grupo está repleto de verdadeiras pérolas musicais. O adjetivo não é exagero nem saudosismo, porque eles vêm se preocupando com a preservação de nossas raízes musicais em suas composições e nas parcerias, sejam elas feitas com compositores das comunidades ou renomados como Nei Lopes, Serginho Meriti, Dona Ivone Lara, Monarco da Portela, Delcio Carvalho, Wilson das Neves, entre outros.

Da primeira à décima quinta faixa é um verdadeiro desfile de bom gosto, ternura, respeito e raiz. Pelo andar da carruagem, o sempre atuante Nelson Sargento pode ficar sossegado: o nosso samba nunca mais agonizará. Aliás, nem chegará à UTI!

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