Nascidas em rituais de devoção a orixás, as danças africanas se tornaram forma de expressão artística no Brasil. Entretanto, a ligação com o candomblé é facilmente notada na soltura dos movimentos e na valorização do coletivo. Saiba mais sobre as influências das danças afro-brasileiras

 

TEXTO: Redação | FOTO: Shutterstock | Adaptação web: David Pereira

 

A influencia das danças afro-brasileiras | FOTO: Shutterstock

A influencia das danças afro-brasileiras | FOTO: Shutterstock

 

A dança afro-brasileira é caracterizada pela variação de movimentos, herdados dos ancestrais africanos por meio da tradição oral. Segundo a pesquisadora Kelly Cardoso, “a oralidade como ferramenta de registro atingiu muitos campos da vida africana, o que deixou como legado para a dança, mesmo a afro-brasileira, uma grande lacuna quando falamos em sistematização ou mesmo um registro formal de um saber que, há muito, vem sendo repassado somente pelas vozes do corpo e do gesto. Para os africanos o corpo é, por excelência, o local da memória, o corpo em performance”. Embora a tradição tenha sido passada entre as gerações sem registros manuscritos ou desenhados, a dança africana é capaz de expressar sentimentos de diversas naturezas. E talvez a necessária proximidade entre o povo seja a explicação para a intensidade dos movimentos, executados em rituais sempre ligados a orixás.

A dança afro-brasileira tem base conceitual no cotidiano do negro africano. Momentos da vida diária das tribos – como o corte da cana, a colheita, a preparação da farinha, a caça ou a pesca – e ritos e tradições, como a homenagem aos deuses, à natureza, a coroação de um rei ou a morte estão entre as representações. Os movimentos são feitos de forma coletiva, em uma forma de demonstração de igualdade. “A procura das pessoas pela dança e pelo conteúdo que ela manifesta nos movimentos e ritmos da percussão faz com que possam ter contato através do corpo e do trabalho em grupo. É uma prática africana, e nas manifestações afro-brasileiras também há um poder de união muito forte”, explica Enoque Santos, bailarino, coreógrafo e pesquisador.

No Brasil, essa herança ganhou novos significados. Originalmente realizadas para relatar aos mais jovens fatos históricos, de forma a reforçar tradições e fundamentar a cultura, as danças se transformavam em um importante meio de valorização do grupo familiar ou social. Outras, contudo, nasceram como meio de expressão e diversão, e revelavam a intensidade da energia de cada indivíduo, seu poder e suas capacidades.

Mesmo com as fusões, a dança afro-brasileira é traduzida pelo candomblé, que não só mantém forte influência obre os negros como também sobre os brancos, uma vez que ambos estão, de certo modo, envolvidos nestas expressões. “Principalmente na Bahia, a relação da dança afro vai além da história, do visível e da palavra. Os mitos nos cultos afro-brasileiros não são apenas referências a um passado histórico, os mitos são revividos, dramatizados, são meios de comunicação e expressão através das danças”, diz Enoque.

Assim como a miscigenada raça brasileira, a dança incorporou matrizes europeias e indígenas. Em algumas manifestações folclóricas, já não se percebe mais as suas origens étnicas. Estas modalidades são exclusivamente brasileiras. “Brasil é um país multicultural, e na sua pluralidade, a dança pôde unir as classes e aproximar os povos em uma grande celebração”, avalia Enoque. Agilidade e soltura de cabeça, ombros, braços, tronco e quadril são pontos em comum dos movimentos na dança afro-brasileira, que varia entre intensa energia, lentidão e sensualidade. Os joelhos flexionados e os pés marcando fortemente o ritmo mostram a ligação com a terra.

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