À memória de George Floyd e João Pedro


Há um ano, muitas pessoas ficaram abaladas com duas mortes que ocorreram em datas muito próximas e que escancararam a realidade perversa da brutalidade policial: as mortes de João Pedro e de George Floyd, um menino afro-brasileiro e um adulto afro-americano vitimados pela violência cometida por agentes do estado.

A morte de George Floyd foi gravada num vídeo de mais de nove minutos. Durante algum tempo, particularmente preferi não ver o vídeo, pois sabia que também iria me sentir sufocado, que iria vivenciar o sofrimento de outro homem negro como se fosse meu próprio sofrimento e que seria difícil conter o ódio e a revolta. Ao longo das semanas, com as imagens saltando de telas de computador e TV, acabei assistindo trechos. E mesmo após o tempo ter passado, é difícil não sentir raiva e indignação ao ver a cena em que aquele policial tira a vida de um ser humano ao mesmo tempo que ostenta uma expressão neutra.

As últimas frases de George Floyd transmitem um pouco do sentimento do povo preto diante da violência policial e do racismo estrutural: “Eu não consigo respirar”. Nós não conseguimos respirar porque estamos sempre com um joelho em nosso pescoço, sempre com o rosto pressionado contra a calçada. Quando menos esperamos, surge numa esquina a arrogância fardada preparada para pisar em nosso destino e cercear nossa liberdade. Há sempre uma autoridade querendo decidir quanto ar podemos ter sem ameaçar os privilégios das elites. Há sempre um ato de covardia acontecendo na surdina, até que a câmera de um celular mostre ao mundo o que todos intimamente sabem: que o sufoco, a violência e as balas escolhem os corpos pretos não por acidente, mas por uma lógica de extermínio. A sociedade está doente!

Mas, há um ano, as câmeras e os vídeos também mostraram um outro fato impactante: a reação de parcela expressiva da sociedade repudiando essa violência racial, reação que tomou proporções mundiais. Não há como não ver uma poesia rebelde nas ruas, nas vozes, nas marchas e nos protestos que se seguiram à morte de Floyd. Não tem como não sentir o coração aquecido pela solidariedade que se desenhou. “Papai mudou o mundo!”, disse a filha de Floyd. Ela estava certa. Essa nova realidade ainda está sendo gestada, mas a luta contra o racismo e a violência ganha cada vez mais fôlego. Ainda ecoam as palavras entoadas por pessoas de todas as cores: “Vidas negras importam”. Por outro lado, há reações a esse movimento, que manifestam um outro sintoma da doença da sociedade: o ódio. Precisamos combater o ódio sempre!

A morte do menino João Pedro não foi captada por câmeras. João parou de respirar numa idade em que deveria estar jogando bola, estudando, namorando… Mas o seu desaparecimento, e o de outras crianças vitimadas pela violência, como Ágatha Félix, não será esquecido. E tanto João como Floyd vão ser lembrados enquantocontinuarmos escrevendo, cantando, lutando, até chegar o momento em que crianças como João Pedro, em que homens como George Floyd possam viver uma vida inteira sem ter que reivindicar a cada momento o direito de respirar. A sociedade pode se curar! Nesse sentido, vão nos ajudar a força da ancestralidade, a energia do trabalho coletivo e a solidariedade de todxs xs que desejam dias melhores.

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Escritor, pesquisador e militante do movimento negro desde 1976. Formado em Filosofia pela USP, está presente em diversas antologias da Literatura Afro- Brasileira

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