Passou o tempo em que cabelo crespo era sinônimo de cabelo maltratado e trabalhoso. Nos dias atuais o cabelo crespo está cada vez mais associado à autoafirmação, autoestima, comportamento e feminilidade

 

TEXTO: Cláudia Canto | FOTOS: Reinaldo Rollo | Adaptação web: David Pereira

A moda do Cabelo Crespo | Modelo: Mirella Santos FOTO: Reinaldo Rollo

A moda do Cabelo Crespo | Modelo: Mirella Santos FOTO: Reinaldo Rollo

O resgate da cultura e a valorização do negro vêm junto com a sua estética e, um dos pontos mais relevantes nessa relação são os cabelos. Em um passado não muito distante, os fios crespos eram vistos como uma parte frágil de negros e negras, tanto que a raspagem dos cabelos na época da escravidão era comum. Para os escravos, porém, este ato equivalia à mutilação, uma vez que o cabelo era uma das marcas da sua identidade. E falar sobre cabelo crespo é, com certeza, passar por aspectos sociais, culturais e políticos da história do povo negro no mundo todo.

Os estilos do cabelo crespo

Com a valorização da beleza negra e sua natural exposição, os fios crespos foram tomando conta das ruas e hoje são exibidos no dia a dia de diversas formas por homens e mulheres, graças também a uma série de produtos elaborados especialmente para este tipo de cabelo e, mais ainda, adaptados à população brasileira. Mas nem sempre foi assim. “Antes dos anos 70, não tínhamos opção para tratar nossos cabelos, a não ser o alisamento e de uma maneira excessivamente primitiva. Usávamos produtos à base de soda cáustica, que causavam queimaduras. Os profissionais também não tinham tantas técnicas. Lembro que um amigo fez um garfo com aro da bicicleta! Gostei tanto da ideia que resolvi fazer um para mim, e foi desta forma que entrei no universo do black power”, conta Durval, cabeleireiro especializado em cabelos afro há 30 anos.

Com as conquistas do negro na sociedade, a indústria da estética evoluiu e apresenta muitas opções destinadas aos cabelos afros como cremes para deixá-lo mais maleável, encaracolados ou lisos. Agora, a mulher negra, principalmente, tem opções! “Uma mulher executiva pode tranquilamente usar um cabelo black power no dia a dia, adequando o visual com a infinidade de acessórios disponíveis, além de fazer coques e diversos outros penteados que, além de deixá-la elegante e na moda, mostrará uma postura autêntica e de autovalorização”, explica Luciana Maia autora do livro Força negra – a luta pela autoestima de um povo.

Fabio Santos, Cauan Almeida, Ismael Nascimento, Marcos Leonardo e Ricardo Xeba | FOTO: Reinaldo Rollo

Fabio Santos, Cauan Almeida, Ismael Nascimento, Marcos Leonardo e Ricardo Xeba | FOTO: Reinaldo Rollo

FIOS, RAÍZES, CULTURA

E foi no início dos anos 90 que os produtos americanos invadiram as prateleiras do mercado brasileiro, trazendo a promessa do alisamento perfeito. A procura por eles foi bastante grande. Até então, o permanente afro era a grande saída para muitas mulheres que reclamavam do trabalho que o cabelo crespo dispensava. Muitas optavam por fórmulas milagrosas para ‘dar um jeito nos fios’. Mas, mesmo com os produtos importados, a queda capilar e os danos permanentes no couro cabeludo aconteciam com frequência, por causa da inadequação dos produtos de fora ao tipo de cabelo dos negros brasileiros. Percebendo essa lacuna, a trajetória profissional do cabeleireiro Wagner começou a ganhar destaque quando ele conseguiu uma bolsa de estudos na Universidade Dudley’s, nos Estados Unidos, para um curso de aperfeiçoamento em cabelos crespos. Lá, aprendeu que as condições climáticas de cada Estado, além da qualidade da água, afetavam diretamente o tratamento dos cabelos. “O uso da química é apenas uma das opções, não uma necessidade como se pensava antigamente. Com muitas pesquisas, desenvolvi uma linha de produtos de acordo com as carências do cabelo crespo”, diz Wagner, que também passou 10 anos palestrando sobre o assunto e atualmente está escrevendo um livro com dicas de saúde e beleza para cabelos crespos. E ele se considera muito mais que um cabeleireiro. “Considero-me um ativista em beleza, porque trabalho também com a autoestima e a autoafirmação do povo negro”, diz, em tom emocionado. Com lágrima nos olhos, relata o dia em que uma mãe, desesperada, foi ao seu salão dizendo que tinha dificuldade de cuidar do cabelo da filha, uma mulher era branca que havia se casado com um homem negro. “Chegaram ao meu salão sem esperanças, a menina tinha vergonha de se olhar no espelho. A mãe reclamava muito do cabelo da filha, alegando que era muito crespo e rebelde. Resolveu sair para fazer compras, enquanto eu arrumava o cabelo da garota. Quando ela voltou, teve uma enorme surpresa ao olhar para filha. Não se contendo, começou a chorar. Ficamos os três muitos emocionados”, relembra.

Experiente no ramo, Wagner faz questão de lembrar que a autoestima melhorou muito com a difusão dos cabelos naturalmente crespos no meio artístico, cujos expoentes são pessoas como Tony Tornado (o pioneiro), Lázaro Ramos, Elisa Lucinda, Tais Araújo e outros negros de destaque, principalmente na televisão. “Hoje é comum minhas clientes virem ao salão para recuperar as madeixas naturais. Muitas estão optando por alongamento na tentativa de recuperar os fios e parar com os alisamentos.” Experiente, o cabeleireiro diz estar convencido de que as pessoas que usam cabelo crespo natural, gastam menos com os serviços de beleza e um pouco mais com cosméticos. “O cabelo crespo com brilho, é maravilhoso. Sem brilho, passa a imagem de mal cuidado. O cabelo afro fica bonito e atraente quando é bem tratado. Quando bem cuidado, tem sempre saldo positivo.”

Quer ver essa e outras matérias da revista? Compre esta edição número 164.

Comentários

Comentários