Oswaldo Faustino faz um perfil do músico Haroldo Oliveira que produz músicas para games. Confira

 

TEXTO: Oswaldo Faustino | FOTOS: Rafael Cusato | Adaptação web: David Pereira

A música dentro dos games | FOTO: Rafael Cusato

A música dentro dos games | FOTO: Rafael Cusato

Ele era uma criança inquieta, ora reservada ora escancarada, mas sempre obstinada com relação aos seus desejos, quando a música o cativou. Paulistano da Vila Moraes, próximo ao Bosque da Saúde, na zona sul da capital paulista, Haroldo Oliveira é um dos filhos do meio de uma leva de 12 irmãos, nascidos de quatro relacionamentos diferentes de seu pai. “Sempre gostei de música. Até que um dia conheci meu irmão mais velho, filho de outra mãe, que tinha um bom violão e o deu de presente a um de nossos irmãos, que vivia em minha casa. O ganhador não se interessou muito e, como meu aniversário estava próximo, passou o instrumento para mim. Foi amor à primeira vista.”

Hoje com 49 anos, Haroldo lembra que, passada a fase do autodidatismo, resolveu se aprofundar nos conhecimentos teóricos:“Para poder dialogar com outros músicos, fui fazer conservatório.Fiz vários cursos esparsos. Estudei harmonia funcional, com Felix Wagner, músico que tocou com Arrigo Barnabé, e também guitarra de jazz, além de ter aulas de canto com Ná Ozzeti. Fui aprender arranjo e a escrever partitura, enfim, eu sou assim: entro de cabeça em tudo o que faço.” Foi então que ele se interessou também pela parte técnica: “Gosto de mexer em mesa de som. Aí, para que não me chamassem de ‘bicão’, procurei desvendar todos os mistérios, nesse campo. Montei meu próprio estúdio, um bom estúdio, aqui mesmo em meu apartamento.” Outro encontro também foi fundamental na história musical de Haroldo Oliveira: “Uma irmã, que também conheci na pré-adolescência, era casada com o baterista e compositor Edu Rocha, que tocava com Gal Costa, quando Caetano e Gil foram exilados em Londres. Tocou também com Jads Macalé, no final da década de 1960. Edu criou a banda os Brazões e depois Alpha Centauro, com alguns músicos feras da época. Seu último trabalho, antes de partir para o campo de jingles e depois falecer, foi com Raul Seixas, naquele disco do Rock das Aranhas”, explica o músico. Edu Rocha foi o grande incentivador da carreira desse músico.

Haroldo Oliveira produz trilhas para games | FOTO: Rafael Cusato

Haroldo Oliveira produz trilhas para games | FOTO: Rafael Cusato

E foi por conta tanto de sua história de músico, iniciada em boates da chamada Boca do Lixo, ainda na adolescência – ele era muito alto e parecia ser mais velho – quanto do aprofundamento nos conhecimentos técnicos que surgiu uma nova realização em sua vida: a criação de videogames. “Dadá Trindade, neta do grande poeta negro Solano Trindade, vive nos Estados Unidos e atua na área criação de games. Acredito que criar em parceria é questão de afinidade e o ambientedo game é muito vasto. Dadá e eu nos afinamos muito bem e fizemos juntos um projeto, já em avançado estado de realização, intitulado Maria Bonita e o Lampeão Digital. Apesar da alusão ao ‘rei do cangaço’, procuramos fugir da violência fácil, muito comum nos games atuais”, explica Haroldo.

O videoclipe de abertura, cuja trilha foi produzida por Haroldo, mostra exatamente a personagem feminina fugindo da violência, representada por um bando de jagunços. A saga da heroína se desenvolve a partir da busca do Lampeão Digital. O músico garante que a aventura acontece num outro patamar em que ela procura formas de solucionar questões que a livram do enfrentamento com seus perseguidores: “É a mulher, eterna buscadora das alternativas para superar as violências”, garante. “A sociedade em que vivemos é muito violenta. É uma violência imposta de cima pra baixo, hierarquicamente, que se desenvolve por meio de diversas formas de repressão. Nos negamos a fazer um game que tenha a violência como linha de frente, como tela de projeção. Então se vão criando alternativas para as possibilidades de se avançar no jogo. Possivelmente tenhamos de criar outro game para responder a alguma questão específica”, adianta o cantor e compositor, para quem a violência existe dentro das estruturas, que muitas vezes não conseguimos perceber. Ele, porém, enfatiza: “Mesmo assim, outros objetivos, nesse game, devem ter mais influência que qualquer tipo deviolência que possa acontecer. Nosso projeto mais constrói que destrói.”

Esse também é o objetivo do trabalho, no mesmo setor, que Haroldo está desenvolvendo com outra amiga brasileira que vive na terra de Tio Sam, Zezeh Brasil, intitulado Samba Game. Nesse, o jogador tem de encontrar várias soluções como a criação de personas do mundo do samba, fantasias, alegorias, enredo, samba-enredo, enfim, todos os componentes para a montagem de um desfile de escola de samba.

 

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