A necropolítica está a pleno vapor no Brasil.

Em recente artigo publicado aqui na Revista Raça, o jornalista Maurício Pestana afirmou que “Embora a Covid-19 no seu surgimento tenha pegado todos indistintamente, negros, brancos, pobres, ricos, oriente, ocidente sem distinção raça, cor ou credo, a cura por meio de uma vacina está se dando de forma seletiva entre regiões e países…” Estou retomando este assunto pois o que está ocorrendo na cidade de Manaus é algo que comprova de maneira insofismável a afirmação de Pestana.

E diria mais: o que está ocorrendo em Manaus e agora espraiando-se para várias cidades do Estado do Amazonas é a necropolítica em estado concentrado. Para quem não é familiarizado com o termo, necropolítica é um conceito estabelecido pelo filosofo e cientista político Camaronês, Achille M’Bembe. Para ele a necropolítica é a capacidade que os estados possuem para estabelecer normas e procedimentos nos quais a submissão da vida pela morte está legitimada. Essa prática “não se dá só por uma instrumentalização da vida, mas também pela destruição dos corpos. Não é só deixar morrer, é fazer morrer também. Esse poder de morte, esse necropoder, é um elemento estrutural no capitalismo neoliberal de hoje, atuando por meio de práticas e tecnologias de gerenciamento de morte de certos grupos e populações”

Sim, o Brasil, ou melhor dizendo o Governo Federal do Brasil, está aplicando de forma exemplar essa metodologia mortal no que tange a política de enfrentamento da Pandemia. Em verdade, já vinha aplicando, em grande medida, contra as populações pobres do país, em particular os negros/as e mais particularmente, contra a juventude negra brasileira, por meio de intervenções espetaculares e macabras nas periferias das grandes cidades do país. Não esqueçamos que são mais de 300 mil jovens negros mortos no Brasil nos últimos dez anos e todo mundo achando absolutamente normal: É a guerra das drogas dizem uns, é tudo vagabundo afirmam outros, mas o fato é que só morre preto e pobre quando as forças de segurança do estado brasileira entram em ação.

Agora, agrega-se a este fazer macabro, um setor governamental que sempre foi tido e havido como um baluarte em defesa da vida. Refiro-me ao Ministério da Saúde. Acreditem, o Supremo Tribunal Federal, por meio do Ministro Ricardo Lewandowski, acaba de autorizar abertura de inquérito por parte da Procuradoria Geral da República/PGR sobre a conduta do Ministro da Saúde na crise sanitária no Amazonas, pois há suspeitas (pasmem) de indícios de omissão para com a inexistência de oxigênio para os pacientes acometidos do Covid naquele Estado que resultou na morte de centenas de pessoas.

As cenas que vimos pelos meios de comunicação ao longo da última semana dispensam explicações. São apavorantes e comoventes, e ao que tudo indica, pelas notícias veiculadas na imprensa, redes sociais, relatórios da empresa responsável, assim como de comissões de agentes da saúde do SUS, houve uma ação deliberada por parte da instituição maior do país, no tratamento da questão. Em vez de enviar oxigênio para os pacientes de Manaus, o Ministério da Saúde enviou 120 mil doses de cloroquina, conforme afirma a Advocacia Geral da União, remédio comprovadamente ineficaz, segundo a Organização Mundial de Saúde/OMS.

E não é apenas o Ministro Lewandowski que está desconfiado sobre a ação do Ministro da Saúde. Segundo o Presidente da Câmara dos Deputados, Rodrigo Maia, ele não tem nenhuma dúvida que houve crime na gestão da Pandemia no país. Enfim, lastimável o que está ocorrendo no Brasil. Estamos nos transformando não apenas em pária do mundo no combate a Pandemia, mas também nos aproximando perigosamente dos conceitos e práticas do nazismo.

Toca a zabumba que a terra é nossa!

 

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Mestre em Cultura e Sociedade pela Ufba. Ex-presidente da Fundação Palmares, atualmente é presidente da Fundação Pedro Calmon - Secretaria de Cultura do Estado da Bahia.

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