Em sua coluna, Oswaldo Faustino conta a história de Paula, a Baiana, que mostra a humanidade na Marinha do Brasil tornando-se Madrinha da Infantaria Naval

 

TEXTO: Oswaldo Faustino | FOTO: Reprodução | Adaptação web: David Pereira

Paula, a Baiana, madrinha da Infantaria Naval | FOTO: Reprodução

Paula, a Baiana, madrinha da Infantaria Naval | FOTO: Reprodução

Não. O lado humano nada tem a ver com a instituição, mas com parte de seus integrantes. Mais precisamente sua infantaria, os valorosos e sofridos Fuzileiros Navais. Descobri isso por meio do blog Coisa de Naval, de Gil Cordeiro Dias Ferreira, e do maravilhoso livro Mulheres Negras do Brasil, uma obra fundamental de Schuma Schumaher e Érico Vital Brazil, publicada pela Editora Senac,em parceria com a Rede de Desenvolvimento Humano (Redeh).

Tirei essa conclusão ao tomar conhecimento da existência de Paula, a Baiana (seu nome verdadeiro, nem um nem outro revela), provavelmente do Recôncavo, como muitas que seguiram ainda jovens para o Rio de Janeiro, no século 19. Consta que sua chegada na então Capital Federal se deu em 1895. E ela foi residir numa pequena casa alugada no subúrbio de Rocha Miranda, na zona norte do Rio de Janeiro. Quituteira de mão cheia, Paula levava seu tabuleiro à porta do Corpo de Infantaria da Marinha, na Ilha das Cobras, para vender aos militares esfaimados bolinhos de tapioca, pés de moleque, cuscuz, laranjas e bananas, entre outras guloseimas. João Cândido certamente a conheceu. Aquela negra cativou não só a marujada, mas também o pessoal do clube dos oficiais.

Assim, ela foi autorizada a montar sua pequena cantina, conhecida como Mafuá da Baiana, no pátio do Batalhão Naval. Perfilava-se, ao lado do tabuleiro, diante das altas patentes e, aos poucos, foi conquistando respeito e admiração. Em datas cívicas, como o 7 de setembro e o 15 de novembro, vestia sua saia branca engomada, seu dólmã vermelho com botões dourados, ajeitava seu turbante branco e sobre ele a cesta de vime em que carregava seus quitutes. Considerada madrinha da Infantaria, era Fuzileira Honorária e marchava ao lado das tropas, aclamada pela população. Quando não estava vendendo ou preparando as guloseimas, Paula lavava roupas na Cova da Onça, hoje uma tradição na Fortaleza São José, na Ilha das Cobras.

Ao falecer, em abril de 1935, foi homenageada pelo Batalhão Naval que cruzou os fuzis cobertos de flores brancas e vermelhas sobre sua sepultura. Um bonito gesto por parte de integrantes dessa instituição de 190 anos, fundada após aIndependência do Brasil. Infelizmente, em nome da segurança nacional, ela arranca famílias – com violência – de tradicionais terras quilombolas e perde a oportunidade de conhecer e reconhecer centenas de outras Paulas Baianas...

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