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A ORIGEM DO TANGO

  • Autor: redação redação

  • Publicado em: 18/10/2016

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Oswaldo Faustino fala sobre a origem do ritmo tango. Confira

 

TEXTO: Oswaldo Faustino | FOTO: Divulgação | Adaptação web: David Pereira

O cineasta angolano Dom Pedro | FOTO: Divulgação
O cineasta angolano Dom Pedro | FOTO: Divulgação

A música platina associada à Paris das manifestações de maio de 1968 – na obra-prima de Bertolucci –, também poderia ter como inspiração outro fenômeno político do mesmo período: as lutas libertárias do continente de onde esse ritmo se originou.

Essa é uma das conclusões que, certamente, poderemos tirar quando assistirmos ao documentário “Tango Negro – As raízes africanas do Tango”, do cineasta angolano Dom Pedro, cuja estreia aconteceu em 2013, na sede da UNESCO, em Paris. O longa dirigido e editado pelo jornalista José Luís Mendonça foi matéria de capa do Cultura – Jornal Angolano de Artes de Letras.

Bastante aplaudido na primeira exibição do filme, o documentarista, que se especializou em produções focadas em músicos e estilos musicais afros, revelou que a ideia nasceu em 1990, mas só pode iniciar as pesquisas que resultaram nessa obra em 2003. Existem várias teses eurocêntricas para explicar as origens do tango, um dos patrimônios imateriais da humanidade – assim como é o samba de roda –, que se proliferou principalmente nos submundos de Buenos Aires e Montevidéu, nas primeiras décadas do século XX, antes de conquistar o mundo. Porém, músicos e intelectuais, como o argentino Juan Carlos Cáceres, sempre afirmaram que o ritmo e sua riqueza harmônica faziam parte da bagagem dos africanos escravizados ao chegarem à América Latina.

Trombonista de jazz, pianista, cantor e compositor, radicado em Paris desde os anos de 1960, Cáceres é um dos depoentes do filme de Dom Pedro. Além do tango, ele é especialista em outros estilos musicais das regiões ao longo do Rio da Prata, como a milonga, a murga e o candombe, até então o único que era reconhecido como oriundo da África.

Dom Pedro também vive na capital francesa, onde se formou em Sociologia. Seus estudos cinematográficos foram realizados no Conservatório Livre do Cinema Francês. O documentário Tango Negro foi filmado na França, na Argentina e no Uruguai. A produção contou com apoio da TV5 Monde, do Ministério da Cultura francês e da UNESCO. Na língua kikongo, dos povos Bantu que viviam no reino do Kongo, existe a palavra “ntango”, que quer dizer “tempo”, ou “o sol”, como marco da passagem do tempo. Homem negro é “ndombe”, que originou a palavra candombe. É majoritariamente nessa região da África Central que foram sequestrados homens e mulheres trazidos para serem escravizados neste continente.

No filme, especialistas em tango apontam características dessa música que a remete à cultura Bantu. Não negam as posteriores influências culturais dos imigrantes italianos e espanhóis, mas ressaltam sua identidade afro-latina. Dom Pedro já articulou a apresentação de seu filme no Uruguai, onde existe uma expressiva população negra, e afirma que o inscreverá também em festivais no Brasil, no Canadá e na Europa. Tango Negro é o oitavo documentário da carreira do cineasta, que já dirigiu: “O longo caminho da Paz em Angola”; “Rido Bayonne, nascido na África”; “Pépé Felly, a alma do Zaïko Langa Langa”; “Michelino, estrela da Rumba”; “Kin-Malebo Danse”; “Congo: Ritmos e Rumba”; “Bonga, em nome da liberdade”; e “Ray Lema, partilha total sem fronteiras”.

 
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