Conheça um ícone do samba do Rio de Janeiro

 

Texto: Oswaldo Faustisno | Foto: Divulgação  |Adaptação web Sara Loup

A voz do samba carioca | Foto: Divulgação

A voz do samba carioca | Foto: Divulgação

Saruê. Era esse o apelido do garoto negro nascido em São Cristóvão, que aos nove anos engraxava sapatos, vendia jornais e, depois, aos 15, tocava tamborim na bateria da Mangueira e aprendeu a tocar cavaquinho. Ainda na infância, acompanhava a mãe, Dona Benvinda, que brincava carnaval na Escola de Samba Deixa Malhar, no Engenho Novo. O apelido Jamelão, dado quando cantava na gafieira do Jardim do Meyer, não podia ser politicamente mais incorreto.  Afinal, trata-se do fruto da árvore de mesmo nome, também conhecida por jambolão, de coloração que varia do roxo ao negro e mancha tudo que toca. Nas atividades profissionais, revezava o trabalho de escrivão de polícia com o de crooner da Orquestra Tabajara.

Com seu vozeirão potente e timbre único, cantou em todas as gafieiras do Rio de Janeiro a maioria dos ritmos da Música Popular Brasileira e da latina, em especial o samba e o samba-canção. Para o compositor Nei Lopes, “se ele não tivesse uma carreira tão ligada à escola de samba, teria reconhecimento muito maior. O samba, até por questões de mercado, o deixava meio restrito ao carnaval. Mas Jamelão era o maior cantor brasileiro. Assim como se mostrou o maior intérprete de Lupicínio Rodrigues, também foi o maior de Ary Barroso. Ele imortalizou Folha Morta.

”Jamais vou esquecer o dia em que perguntei a Martinho da Vila durante uma entrevista, se escola de samba tinha intérprete ou “puxador de samba”. Martinho me respondeu: “No desfile de uma escola de samba, não há espaço para interpretação. A pessoa é mesmo um ‘puxador’, uma voz guia para a massa não perder a melodia e se orientar em que trecho está do samba. Mas, olha, por favor, não fale mal de Jamelão. Ele é um patrimônio cultural do nosso País”. Prometi que não falaria e não falei.

O que a mídia desconhecia é que Jamelão era todo simplicidade. Frequentava nossos clubes. Em São Paulo, era fácil encontrá-lo no Aristocrata ou no Coimbra, no Som de Cristal, no Paulistano da Glória. Espaços negros e populares. No Rio, era o Renascença, eram as gafieiras. Mas ele odiava badalação, pedido para dar uma canja, gente que vinha “tietar”, pedir autógrafo ou posar para foto. Passava a noite toda sentado, com alguns elásticos ora no pulso ora na mão.

Apesar de ser o compositor de pelo menos meia centena de sambas, como Quem samba fica, quem não samba vai embora”, seu forte mesmo era a interpretação. De 1949 a 2003, gravou 77 discos, sem contar participação em álbuns coletivos. Também de 1949 até 2006 foi a voz da Mangueira.

Diabético e hipertenso, seus cochilos em locais públicos, como bares com música ao vivo e quadras de escolas de samba, tornaram-se folclóricos. Um deles, em especial, aconteceu em 2001, no Palácio da Alvorada, após o presidente Fernando Henrique lhe entregar a medalha da Ordem do Mérito Cultural. Começaram os intermináveis discursos e ele dormiu na cadeira. Esse era o Jamelão, a mais bela e encorpada voz do Brasil. Podia cochilar, podia responder com grosseria, podia tudo. Só não podia se calar e deixar a gente com essa imensa saudade.

 

Quer ver esta e outras matérias da revista? Compre esta edição número 172

Comentários

Comentários