A voz e o ouvidos negros brasileiros nos Estados Unidos

Mauricio Pestanajunho 17, 20201 min
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O que há de comum entre o rapper MV Bill; o Babalorixá Ivanir Ribeira; o reitor da Faculdade Zumbi dos Palmares, José Vicente, o diretor executivo da RAÇA, Mauricio Pestana, Elizabete Pinto, do coletivo Fala Preta; Elias Sampaio, do PT da Bahia; e Rosália Lemos, do Centro de Combate ao Racismo em Niteroi? Muitos dirão que é o fato de serem negros e negras! Sim, mas esses e outros negros foram ativistas brasileiros que narraram experiência da luta contra o racismo no Brasil, em universidades e organizações negras nos Estados Unidos, na voz e ouvidos de Jhon  Drayer.

Este Norte-Americano de ascendência judaica tem se dedicado há décadas ao estudo e interpretação do racismo no Brasil e nos Estados Unidos. Bacharel em Letras pela University of Pittsburgh (1968),  Mestre no ensino de línguas estrangeiras; Mestre em Relações Raciais Comparadas: Brasil, Estados Unidos e a África Portuguesa; Doutor em Educação para o desenvolvimento e o ensino de línguas e Doutor em estudo dos Imigrantes Portugueses. Ele acumula mais de 40 anos dedicados ao entendimento de questões mais profundas do racismo contemporâneo. Saiba mais nesta entrevista exclusiva para a revista RAÇA.

Nas últimas décadas, o senhor tem se dedicado a estudar e tentar compreender as complexas relações raciais nos dois países em que o racismo mais floresceu no mundo. Por que o seu interesse por este tema?

Acho que nasci com uma dose excessiva de empatia no meu DNA, até choro no cinema! Meus pais me expuseram a várias etnias, raças e nacionalidades, desde criança.  Aos 08 anos, uma menina negra da mesma idade usou dois vocábulos novos para mim: “estupro” e “motim racial”. Eram temas que destacavam na realidade dela, mas que eu, na minha inocência. desconhecia totalmente. Recorri ao meu pai para ele me explicar, delicadamente. Aos 10 anos conheci um primo do meu pai e a esposa dele, que tinham passaram cinco anos sobrevivendo desde os guetos, trabalho forçado, até os campos de concentração do inferno Hitleriano.  Levei anos para compreender o que esses fenômenos significavam.  Desde então, procuro compreender esse comportamento cruel que nos aflige e aos nossos próximos. E busco meios de lidar com essa dura realidade, senão acabar com ela.

Diante desses estudos das questões raciais no Brasil e Estados Unidos, em qual desses dois países o senhor sente que a igualdade racial mais avançou, ao longo dessas quatro décadas?

É preciso reconhecer que segue problemático nos dois países, porém, nos Estados Unidos temos uma tradição herdada, talvez dos ingleses, de liberdade de expressão, o que leva o assunto diante o olhar público, clamando respostas e soluções, melhor dito, experimentos para tratarmos do problema.  Lutamos uma guerra civil sobre a questão de escravatura e até agora procuramos resolver os problemas herdados daquela época. São poucos os americanos que vão dizer que não temos problemas raciais.  Flutuam muitas propostas para resolver o problema. Na política, temos experimentado com várias respostas, todos com benefícios e defeitos. Num gesto para compensar os afrodescendentes americanos pelos séculos de mão-de-obra forçada, criamos universidades e institutos de ensino superior “tradicionalmente negros” para os descendentes dos escravos.  Pode-se dizer que a invenção da segregação racial de juris e de fato, trouxe prejuízos e benefícios.  Criaram-se fortes instituições negras americanas, como igrejas, hospitais, programas e entidades de apoio socioeconômico. Pelo que entendo, a abolição no Brasil foi declarada pela Princesa Isabel e parece que os que estavam no poder fingiram esquecer-se desses séculos brutais em que os negros brasileiros, tanto quanto os americanos, tinham dado um enorme arranque à economia nacional.  Em vez de compensar os ex-escravos, a Lei Áurea proibiu a chegada dos recém libertados nas cidades à procura de emprego e oportunidade.  No mesmo tempo, os que estavam no poder no Brasil, procuraram embranquecer a população brasileira através de incentivos para trazer imigrantes europeus, oferecendo-lhes terrenos para cultivar e outros mais benefícios.  Fizeram caso para ignorar ou, na prática, “apagar” existência do negro. O resultado é que o privilégio geralmente se reserva àqueles da pele mais clara e são esses mesmos, em geral, que negam a existência de um problema racial. Levei um susto ao observar isso com tantos visitantes brancos brasileiros, até membros do judiciário! O resultado é o mito brasileiro da “democracia racial.”

Diante do fato do senhor ter acompanhado de perto a luta por direitos civis nos Estados Unidos e há décadas ser o intérprete oficial de grandes lideranças negras do Brasil em seu país, o que há em comum e de diferente na luta antirracista nos dois países?

Observei uma certa ingenuidade entre alguns líderes negros brasileiros vindos nos projetos que acompanhei. Davam a impressão de que acharam “a solução” para o racismo brasileiro aqui, nas práticas imperfeitas dos americanos negros e brancos que lutamos contra o mesmo mal. Enxergam, com certa razão, em parte, a realidade racial brasileira atual semelhar-se à situação americana na década de 50. Um vereador carioca que acompanhei dizia que quem chega ao Rio de Janeiro e liga a televisão, tem a impressão de que está na Dinamarca. Devido à presença negra na mídia americana, destacando figuras positivas até nas promoções comerciais e em todas as camadas socioeconómicas, os visitantes negros brasileiros nos veem mais adiantados e avançados. Procuravam replicar algumas práticas nossas, como cotas e ação afirmativa, por exemplo, para acabar com esse mal. De fato, eles visitavam alguns líderes americanos destacados nessa luta, pessoas iluminadas e conscientes dos nossos desafios na área das relações raciais. Viam que nenhum americano, branco ou negro, acredita que temos uma democracia racial. Tive pena do nível geral de ignorância do povo americano, de como tanto negros quanto brancos e os demais, demostravam pouco conhecimento da cultura da África diaspórica latinoamericana. Lembro quando viajei com você, Pestana, e, no centro de informações do aeroporto de Denver, o funcionário nos perguntou que língua falávamos e de onde você era.  Dei unas dicas para ele adivinhar: Você vinha do maior país da américa latina, o da maior população negra fora da África.  Ele adivinhou “Suécia?”  Os líderes negros americanos nacionais e nas grandes cidades recebiam com grande entusiasmo e prazer os seus irmãos negros brasileiros; alguns conheciam de e interessavam pela experiência afro-brasileira.  Os líderes afro-americanos comunitários e nas cidades pequenas, demonstravam alguns conceitos e impressões mesmo ingênuos senão enganados sobre a vossa população.

Os Estados Unidos têm uma forte presença de negros na economia, com muitos milionários principalmente no Show Business e nos esportes. A participação desses endinheirados na luta antirracista tem feito a diferença?

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Mauricio Pestana

Jornalista, publicitário, cartunista e escritor. Exerceu o cargo de Secretário de Promoção da Igualdade Racial da Cidade de São Paulo de abril de 2013 a dezembro de 2016. Atualmente é Diretor executivo da Revista Raça.

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