O artigo de Uelinton Farias Alves fala sobre os africanos que conquistaram o prêmio Nobel nas mais diversas áreas

 

TEXTO: Uelinton Farias Alves | FOTOS: Divulgação | Adaptação web: David Pereira

O ex-presidente da África do Sul e maior símbolo da luta contra o apartheid, Nelson Mandela, ganhou o prêmio Nobel da paz | FOTO: Divulgação

O ex-presidente da África do Sul e maior símbolo da luta contra o apartheid, Nelson Mandela, ganhou o prêmio Nobel da paz | FOTO: Divulgação

Cabe destacar que, quando falamos dos países dos continentes africanos, estamos nos referindo à grande concentração da população negra mundial - origem da humanidade - e aos estados fomentadores da cultura e do saber. E, ao destacarmos esta particularidade, chamamos involuntariamente à atenção para o problema, que o Brasil, embora desponte como uma das maiores economias do planeta, e tenha grandes parques tecnológicos e instituições respeitadas na comunidade científica, está no atraso intelectual e cultural da humanidade, atrás da Letônia, Eslovênia, Trinidad e Tobago, Tibet, Lituânia, Croácia, Azerbarjão, Argélia, além de dezenas de outros países ou estados-nação, pouco representativos no contexto econômico e social do mundo.

Torna-se emblemático pensar que, sendo o Brasil um país com tanta dimensão e importância, não tenha sido agraciado com um Nobel ou um Oscar, por exemplo. Mas um dia chegamos lá, penso eu. Já os países africanos, origem de boa parte de nossa população, estão não só à frente do Brasil, mas no topo da concentração mundial dos pensadores e homens e mulheres intelectualizados. Não há como deixarmos de refletir sobre isso com base no contexto da inserção dos países africanos no panorama mundial do saber e da cientificidade. Podemos concluir que, na contramão das informações que nos chegam das agências internacionais de comunicação, o suposto atraso mental dos países africanos é, antes de tudo, uma falácia descabida para encobrir e subjugar, feita de forma direcionada pelo sistema racista mundial, para manter o secular controle financeiro, cultural e social daqueles povos, reforçando dogmas do escravismo dos tempos da Idade Média. Mas como o Brasil e a África andam, como bem o sabemos, de mãos dadas e atadas, cabe aqui referenciar que, longe do que se possa imaginar, não há comparação de valor (até porque não é o tom desse artigo, nem há a intenção para isso) entre um e outro, muito pelo contrário. Tanto o Brasil, quanto os brasileiros, devem um posicionamento de respeito, sem o qual não se supõe a recíproca. No caso específico dos prêmios Nobel aos intelectuais, artistas, escritores e cientistas africanos, a grande referência são as distinções ganhas em favor da luta pela paz, oito no total.

Neste aspecto, o arcebispo Desmond Tutu e o ex-preso político e ex-presidente da África do Sul Nelson Mandela, despontam como os grandes ícones de defesa da democracia e dos direitos à liberdade naquele Continente. Mas, não há como ignorar, em se tratando da luta pela paz, a figura exemplar de John Luthuli, considerado “o Ghandi africano”, que recebeu o prêmio em 1960, mesmo ano em que o governo racista declarou ilegais todos os movimentos nacionalistas e ordenou a prisão dos seus principais líderes, acirrando, com isso, ainda mais, o temido apartheid. Ainda receberam o prêmio da paz, Anwarel-Sadate, nascido no Égito, Frederik Willem de Klerk, que o dividiu com Mandela, Kofi Annan, de Gana, Wangari Maathai, do Quênia, morta em 2011, e Ellen Johnson-Sirleaf, da Libéria.

No campo da Literatura as distinções não foram diferentes. No total, até agora, quatro africanos receberam a láurea, sendo os nomes mais divulgados e conhecidos, os do célebre poeta Wole Soyinka, da Nigéria, que já esteve algumas vezes viajando pelo Brasil, e da renomada romancista e polemistaNadine Gordimer, que em 2007, participou como palestrante da Flip – Festa Literária Internacional de Paraty. Mas o Nobel de Literatura também agraciou notoriedades como Naguib Mahfouz, em 1988, do Egito, e John Coetzee, da África do Sul, outro que conhece as terras brasileiras e tem muitos livros traduzidos por aqui.

A escritora sul-africana Nadine Gordimer recebeu o Nobel de Literatura em 1991 | FOTO: Divulgação

A escritora sul-africana Nadine Gordimer recebeu o Nobel de Literatura em 1991 | FOTO: Divulgação

Não só pela sua dimensão e reconhecimento, mas o ganhador do prêmio Nobel é visto no mundo inteiro como um intelectual de ponta ou um cientista destacado, passando a ser foco das atenções, não só da chamada grande mídia mas igualmente despertando a curiosidade das pessoas, que vasculham-lhe a vida e devoram seus escritos. Esse olhar sobre os africanos também foi distinguido, pela Academia Sueca, igualmente na Medicina e Química. Nessas duas áreas notáveis do conhecimento, sem sombra de dúvida, já se destacaram cinco gênios do continente africano. Na Medicina, um dos primeiros foi o microbiologista Max Theiler, que, embora tenha vivido nos Estados Unidos, onde trabalhou no Departamento Tropical da prestigiada Universidade de Harvard, em Boston, não esqueceu suas origens. O “crème de la crème” do seu trabalho resultou na descoberta da vacina contra a febre amarela, principal motivo, pelo qual, lhe foi concedido o prêmio Nobel. Ainda neste campo, destacam-se Allan Cormack, também sul-africano, com uma extraordinária carreira internacional, que partilhou o prêmio com o inventor inglês Sir Godfrey Newbold Hounsfield, sem contar a contribuição do biólogo Sydney Brenner, ganhador em 2002, outro sul-africano que temos o dever de destacar. Em Química, os nomes de Aaron Klub, notável cientista, nascido na região de Transval, África do Sul. Sua pesquisa foram na direção da combinação da microscopia eletrônica ede princípios de difração. Ao mesmo tempo em que avançava nessa área, conseguiu fazer descobertas que o levaram a soluções de problemas como os das estruturais do vírus do mosaico do tabaco, o chamado RNA de transferência e a cromatina. Através de Aaron Klub ocorreu a possibilidade da determinação do Código Genético. Seu prêmio foi conferido em 1982.

Outro gênio na Química, que ganhou o prêmio em 1989, foi Ahmad Zuail. Nascido no Egito, em 1946. Seus estudos foram realizados em escolas de Al-Nahda e Dusuq, se licenciando na Faculdade de Ciência de Alexandria. Um dos seus grandes feitos, está no avanço cientifi co no campo do laser ao conseguir fotografar o nascimento da molécula com uma velocidade vertiginosa, numa escala de tempo medida em “femto-segundos”, um excelente feito para a época. No campo da Medicina, cabe destacar o papel desempenhado pelo etíope Legesse Wolde Yohannes e seu contemporâneo Ueshull Wolde-Yohannes, a quem, em 1989, se atribuiu o “Prêmio Nobel Alternativo”, por terem trabalhado para encontrar um remédio para a bilharziose, doença que destrói o fígado de milhares de africanos todos os anos.

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