Ancestralidade Valorizada

Primeira cirurgiã plástica negra do Brasil, a baiana Tatiana Novais já perdeu a conta de quantas vezes foi questionada por colegas e amigos sobre a razão de ainda não ter operado seu nariz. Com abas características negroides, o nariz da médica é um aspecto físico e também uma marca familiar que ela gosta de carregar.

É algo que ela tenta levar para seus pacientes:

equilíbrio e valorização de características raciais.

“O conceito de beleza sempre esteve relacionado a números exatos e medidas que nasceram da idealização de biotipos da população branca. O brilhante Leonardo Da Vinci chegou a estabelecer proporções numéricas ideais para um padrão de beleza europeu, e foi seguido por inúmeros estudiosos. Tais medidas se tornaram arbitrárias e viraram uma imposição que já perdura pelos séculos”, explica a cirurgiã plástica.

Idealizadora da I Jornada de Saúde e Beleza Negra, evento pioneiro no Brasil com essa abordagem, Dra. Tatiana diz que ainda recebe mulheres negras que desejam fazer cirurgia plástica no nariz, tendo como referência o nariz de personalidades como Xuxa.

“Podemos sim operar um nariz com características da raça negra caso ele tenha uma desproporção real que desagrada o paciente. Mas cada caso deve ser avaliado com muito cuidado, porque a cirurgia não pode ser uma tentativa de adquirir um traço étnico que não é seu”, explica.

O problema é que a consciência acerca da valorização da identidade racial não é comum a todos os profissionais de saúde quando o que está em pauta é atender ao desejo do paciente, seja ele qual for. A prova disso está na realização indiscriminada de cortes das abas nasais, procedimento denominado alectomia, muitas vezes em clínicas e não em hospitais, impondo deformidades na respiração e até risco de morte a essas pessoas que, na maioria das vezes, não têm condição financeira para uma cirurgia plástica.

Não aceitação

O que há de mais grave e que deve provocar sérias reflexões, no entanto, é a motivação para a busca por tais procedimentos: a não aceitação de traços característicos da raça negra, aspecto explícito do racismo estrutural. O impacto psicológico do cabelo crespo e da transição capilar fazem parte disso.

“Existe uma fala antiga: ‘o cabelo crespo não nos deixa esquecer que somos pretos’; mas de um tempo recente, quando era um ideal de muitos tentar disfarçar suas raízes. Hoje, tornou-se um símbolo da negritude e a transição capilar representa uma mudança no curso da história de cada mulher que decide realizá-la, mas carrega um nível de complexidade típico de decisões que envolvem conceitos sensíveis como identidade e preconceito”, comenta.

O fato é que os conceitos atuais de padrão de procedimentos estéticos, como Harmonização Facial, por exemplo, ainda consideram referências do padrão de beleza europeu para concluir o que é ou não harmônico.

“Aceitar essa imposição é acreditar que a grande maioria de nós, negros, estamos fora do que é considerado ‘bonito’ para os olhos da medicina estética e do mundo. E sempre precisamos de um ‘conserto’. Nem preciso dizer que, num país de maioria negra como o nosso, não podemos mais admitir que tais regras sejam usadas como base. A estética deve servir a todos. Definitivamente, um preto lindo não é o preto de traços finos”, defende.

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