Apaixonado e de volta “a esse bando de loucos”

Flavia Cirinojulho 20, 20208 min
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Quando pensamos num jogador de futebol, preto, a imagem de uma mulher branca ao seu lado logo vem à cabeça. Mesmo que “sem querer”. Culpa da colonização? É cultural? O que acontece? Seja como for, entre os jogadores de destaque, atualmente, no Brasil, somente dois são casados com mulher preta. Um deles, João Alves De Assis Silva. O atacante de 33 anos está de volta ao Brasil para jogar no Corinthians, time do qual fez parte do elenco em outras duas temporadas. Na contramão da esmagadora maioria, Jô formou uma família preta, e costuma receber elogios pelo fato de não “ter fisgado uma loura”, destacando a mítica do jogador de futebol preto que opta pela relação interracial. Casado há 13 anos com a carioca Claudia Silva, 36, mãe de seus dois filhos, Pedro e Miguel, Jô contou detalhes de sua trajetória, e comemora a volta ao Timão após uma difícil adaptação no Japão. Ele destaca ainda como a fé reestruturou sua vida, sem esconder turbulências que envolveram relações extraconjugais, separação e até um divórcio com Claudia. Superadas as dificuldades, ele relembra o forte preconceito racial sofrido na Rússia e se afirma estar focado na família e nas quatro linhas e Itaquera. Bola em jogo!

“Desde que me conheço por gente, meus pais colocaram na minha cabeça que a gente não pode ter diferença em nada”. Foi assim que João Alves de Assis Silva,

o Jô, iniciou um amistoso bate-papo com a reportagem da RAÇA, em sua casa, no Rio de Janeiro, às vésperas da mudança para São Paulo, onde reintegrou-se ao Corinthians, clube no qual começou sua trajetória. Após morar em seis países, Jô se consolida como um homem realizado pessoal e profissionalmente, e atribui à família o seu êxito. Em especial, à mulher, Claudia Silva.

“Sou um dos poucos jogadores de futebol a formar uma família preta. E isso é algo que sempre é citado por seus fãs e seguidores nas redes sociais. Que eu conheça, aqui no Brasil, somente eu e o Cortez, do Grêmio, somos casados com uma preta. Tinha o Ramirez, do Palmeiras, mas separou.”

Jô enfatiza que, em sua casa, a questão racial sempre foi muito debatida.

“Na minha criação, aprendi que não temos que ter preconceito de nada, tanto sexual, quanto racial, classe social, nada! Minha família é de origem pobre e isso sempre foi conversado em casa, não foi depois que virei jogador. Eu não coloquei isso na cabeça de repente.  E sempre vi minha família indo por esse lado, de se juntar à pele negra.

O casal se conheceu quando Jô pertencia à equipe do CSKA, da Rússia. Claudia, à época passista da escola de samba Acadêmicos do Salgueiro, cuja comunidade ela nasceu e foi criada, viajara com o grupo-show para uma temporada em Moscou. Foi uma fase difícil, em que Jô sentia na pele o preconceito por jogadores de futebol, no país. Claudia foi um grande alicerce para superar os ataques racistas.

“Na Rússia tende a preconceito racial. Eu joguei contra um time que até hoje não tem aceitação não é bem visto negro no time. Agora tem o Malcom, que foi muito rejeitado pela torcida. O treinador e o presidente intercederam, a cidade inteira reclamou, mas ele começou a jogar bem e as coisas melhoraram. Eu e Vagner Love éramos do mesmo time (CSKA) e quando a gente entrava para aquecer, jogavam casca de banana. Outro jogador, Welington, de outro time, nunca foi aceito. No último ano dele, a torcida colocou uma faixa no estádio, escrita “vai embora, seu macaco, seu lugar não é aqui”. Ele jogou quatro anos no mesmo time. Eu fiquei três anos. Quando a gente chega lá, já sabemos dessas histórias, mas constatar é bem pesado. Ficava pensando: pra que aquilo? A gente relevava, mas é triste!”, lembra.

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Flavia Cirino

Editora-chefe da revista RAÇA. Jornalista pós-graduada em jornalismo cultural e assessoria de imprensa, com ampla experiência em televisão e impressos. Também atua como relações públicas no universo corporativo e artístico.

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