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Aprendendo o verbo amar

Casados há 18 anos, Joyce Ribeiro e Luciano Silva enfatizam a representatividade do amor preto

Responsabilidade afetiva. Amor romântico. Relacionamento. Amor preto! No mês em que se comemora o amor, a RAÇA destaca uma genuína família preta. Repleta de e conduzida por amor.

Amor” é coletivo e parte da filosofia UBUNTU: eu sou porque nós somos. O amor preto acredita na construção de um relacionamento, onde todos os lados envolvidos têm de estar dispostos a assumirem as consequências de seus atos. Passar adiante a essência preta, baseada em verdade, representatividade, escolhas, é a opção deste casal. Pais de Maria Luísa e Lorena, de seis e quatro anos respectivamente, Joyce Ribeiro e Luciano Silva expressam todo o seu amor na entrevista a seguir.

RAÇA: Discutir colorismo dentro das relações amorosas também faz parte das responsabilidades afetivas e isso não deve estar restrito aos padrões que nos ensinaram. Amor preto, amor wakanda, amor inter-racial. O que vale?

JR: Acredito realmente que o amor não tem cor. As pessoas estão aí, vivendo, conhecendo-se. Podem e têm o direito de se apaixonar livremente. Essa também é uma conquista. Temos que entender e valorizar as coisas, não é condenar o amor inter-racial, isso é impensável. Não podemos tentar explicar um erro com outro. Não é com extremismo. O amor é livre. As pessoas podem se amar da maneira que elas queiram. Mas eu e Luciano viemos de uma geração que sempre teve esse ranço da exclusão da mulher negra. Cresci sob essa pressão de que a mulher negra não é desejada. Não se via beleza, tudo era feio. Da mesma forma que a gente não pode condenar o amor inter-racial, não podemos achar normal um homem negro só ver beleza naquilo que é o oposto. Temos que nos fortalecer, acreditar que o amor entre nós também é possível, como todas as outras formas de amor. É tão preconceituoso condenar o amor inter-racial, quanto achar que o homem nunca vai se relacionar com uma mulher negra porque não existe amor entre negros. O desenrolar da humanidade já nos deu artifícios para botarmos algumas coisas na balança e transformarmos comportamentos. Só vamos mudar o mundo se, efetivamente, estivermos dispostos a essa transformação. É abrir o olhar. Os homens negros não têm que se condenar, autopunir-se, porque só gostava de mulheres brancas e agora mudou. A nova geração não tem essas amarras. Minhas filhas estão sendo criadas com outro pensamento, outra vivência, vendo a mãe, os familiares conquistando e lutando. Aí entra a questão da representatividade. Cresci vendo tudo que era exemplo positivo sendo branco e isso tem o seu impacto.

RAÇA: Por muito tempo tivemos o estereótipo da Xuxa com Pelé…

JR: Muito que se propagou e virou a marca, o negão com a loira. Não deve ser dessa forma, o “eu consegui, eu sou aceito, eu sou bem posicionado, eu tenho mulher branca”. É arcaico! Fico feliz em ver esse movimento além da aceitação das meninas. Elas estão mais fortalecidas. Quem não me ama, não me merece, problema é dele, vou achar alguém que me mereça. E os meninos também estão abrindo o olhar, eu vejo essa percepção dos adolescentes de hoje, tipo “eu estou aqui com a minha namorada, que eu escolhi, que é negra e que eu gosto, é com ela que terei nossa família preta e vai ser tudo lindo sim porque eu posso e eu quero”.

RAÇA: Diante do atual quadro político e social, como é ser mãe de duas meninas negras e como passar para elas essa importância de serem o que são?

JR: É um desafio e uma oportunidade imensa ao mesmo tempo. Fico me remetendo à criança que eu fui e à criação que eu tive. Os desafios e as barreiras que eu precisei enfrentar e que elas já não vão enfrentar. Em parte, porque temos forçado essa transformação do mundo e, por um outro lado, porque eu e o meu marido temos treinado essas meninas pra que elas tenham posicionamento diferente do que a gente teve frente aos problemas. O mundo vem se transformando a passos lentos, porque é assim que infelizmente as coisas acontecem. Mas eu também acredito que a nossa consciência, as pessoas da minha geração, é fazer com que as crianças tenham um comportamento diferente. Elas vão enfrentar o racismo, as dificuldades vão acontecer, mas o posicionamento delas será determinante para o desenrolar. Essas crianças merecem olhar pro futuro vislumbrando coisas que a gente não pode. Elas merecem, é o direito delas. E as crianças brancas elas também merecem ser educadas com outro posicionamento, não ser influenciadas pelos padrões preconceituosos que formaram a minha geração e as que vieram antes. Precisamos pensar um plus. A nossa ação é espelho do que elas vão fazer futuramente. A humanidade já chegou num ponto em que a gente sabe o que deu errado, sabe o que precisa mudar e tem que estar disposto a pagar esse preço. Uma das nossas missões é programar a linguagem bem atual, é programar essas crianças com uma nova mentalidade. Crianças negras e crianças brancas.

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