Borba Gato: a celebração de um facínora

No último final de semana as redes sociais e os veículos de comunicação do Brasil inteiro foram inundados com a polêmica “queima” da estátua do bandeirante paulista Borba Gato (Manuel de Borba Gato), por um grupo de ativistas da periferia de São Paulo. Personalidades políticas, historiadores, jornalistas e estudiosos, (muitos de boa fé) saíram em defesa da manutenção da referida estátua, sob argumento básico de que: “derrubar estátuas não muda a história”.

À primeira vista, o argumento acima é mais do que correto, afinal, que importância teria para a sociedade brasileira, envolvida numa luta insana contra a Pandemia, a derrubada de uma estátua na grande São Paulo? Só que a sociedade humana não vive nem se contenta apenas dos relatos históricos racionais. Signos, símbolos e emoções fazem parte desde sempre da história da humanidade e em nome deles, as pessoas se mobilizam, se organizam, fazem guerras, matam e morrem.

Portanto, uma ou várias perguntas se impõe aos defensores da manutenção da estátua de Borba Gato. A primeira delas: Esse argumento valeria para a manutenção de uma estátua de Hitler em uma praça qualquer do Brasil? Mais ainda, qual a razão da proibição do uso da suástica e dos símbolos nazistas em nosso país, levando em conta que sua proibição não muda nem apaga a história, como muitos afirmam, do Holocausto. Afinal, para o bem ou para o mal, Hitler foi uma das maiores lideranças do século XX, produzindo tragédias como a segunda guerra mundial que levou à morte mais de 40 milhões de pessoas, dentre elas 6 milhões de judeus.

Outra pergunta que não quer calar: Porque a celebração da imagem de um mercenário, caçador de índios e negros para escravização, além de mata-los quando havia resistência, é tão importante para o Brasil atual? Se a questão está no campo da memória e da história, o que impede que tais estátuas sejam alocadas em museus ou centros de memórias ou de pesquisas?

A impressão que me dá é que parcela do Brasil, insiste em afirmar seus conceitos e preconceitos autoritários, intolerantes, racistas e violentos como algo natural e como tal todos nós devemos aceitar. Não é nenhuma novidade mundo afora, a derrubada de estátuas ou sua substituição de acordo com os adventos dos novos tempos. Desde a Roma Antiga, essa prática se faz pressente no mundo ocidental. Àquela época, quando o imperador falecia, o Senado decidia se deveria ou não destruir os monumentos referentes a sua gestão. Quando destruídos chamava-se de “condenação da memória”.

Na Revolução Francesa, o mesmo ocorreu com a Bastilha (prisão ícone da monarquia), posta abaixo pelos revolucionários. Do mesmo modo, com a imagem de Saddam Hussein, quando os EUA invadiram o Iraque e assim por diante. Ou seja, é uma prática recorrente das sociedades humanas este ato, que simboliza, em certa medida, mudanças nas celebrações e no entendimento de quem são os seus ícones.

Já passa da hora do Brasil revisitar o seu passado de maneira séria e honesta e admitir que há na sua história, fatos históricos que não são referências positivas para nenhuma nação do mundo, em tempo algum. Exemplo maior, é a escravidão que reinou em nosso país durante quase quatro séculos e que foi responsável pelo extermínio de milhões de indígenas e negros. Portanto, celebrar figuras como Borba Gato é faltar com o respeito aos descendentes dessa tragédia, do mesmo modo que celebrar Hitler o é para os judeus.  

Toca a zabumba que a terra é nossa!

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Mestre em Cultura e Sociedade pela Ufba. Ex-presidente da Fundação Palmares, atualmente é presidente da Fundação Pedro Calmon - Secretaria de Cultura do Estado da Bahia.

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