Branquitude: um lugar de fala confortável

O incomodo estranhamento da apresentadora Ana Maria Bragaem seu programa matinal quanto ao uso do termo “branquitude” por uma das participantes do BBB (Lumena) diz bem sobre a dificuldade que os brancos possuem no Brasil em admitir o seu lugar de privilégio. Impressionante como eles estão atentos. Ao menor sinal de riscodos seus privilégios, eles se contrapõem de pronto. Não querem nem saber de significado, conceito ou valor que a expressão contém. 

Assim reagiu a apresentadora. Vejam vocês que ela nem se deu ao trabalho de saber o significado do termo, que é positivo, visto que indica o reconhecimento, por parte dos brancos, de que “alguns são mais iguais do que os outros”, por conta da cor da pele e busca reverter esse processo ao lutar para que a igualdade seja plena e de fato, para todos. 

A supervalorização do branco não é um fenômeno exclusivamente brasileiro, mas sim mundial, manifestando-se com ênfase nos territórios que foram colonizados pelos europeus e mais ainda onde eles implantaram a escravidão, a exemplo do Brasil. Por isso mesmo, não vou aqui relembrar todas as dores e sofrimentos originárias da escravidão, do racismo e das discriminações contra os negros/as que a apresentadora “ingenuamente” buscou ignorar, afinal elas estão aí para quem quiser ver. 

Portanto, “branquitude”, é também, um lugar de falamais do que confortável em nosso país. É o lugar, onde o silêncio e a cegueira diante do racismo tem cadeira cativa para alguns – “Este silêncio e cegueira permitem não prestar contas, não compensar, não indenizar os negros”, até porque, no final das contas, são interesses econômicos que estão em jogo.”, conforme afirma Cida Bento, (psicóloga e diretora do Centro de Estudos das Relações de Trabalho e Desigualdades, em seu brilhante trabalho: Branqueamento e Branquitude no Brasil.

E o que nos deixa mais impressionados é que tanto o significado sobre branquitude quanto a inexistência do racismo reverso é algo já superado de há muito em qualquer circuito minimamente inteligente que trate da questão racial no mundo. Ele só persiste entre aqueles que continuam acreditando na democracia racial brasileira ou que a cor de jambo é a expressão máxima da nossa mestiçagem. E tudo isso dito, em horário nobre, por uma comunicadora que alcança milhões de pessoas todos os dias. 

Em verdade, a apresentadora faz parte do grupo que chamamos de branquitude acrítica, que é aquela que individual ou coletivamente continua a defender a manutenção do status quo de superioridade racial branca, E que ainda assim, não se considera racista, visto que sua condição de superioridade é tão inquestionável que sequer pode ou deve ser discutida.

A apresentadora não percebe ou não quer perceber que as TVs brasileiras são as mais racistas do mundo, que durante mais de 30 anos (63 a 97) não teve um protagonista negro/a em suas novelas, que o Jornal Nacional só após trinta e dois anos de existência teve um apresentador negro (Heraldo Pereira – 2001), cumprindo a regra do dono que “não queria nem preto nem desdentado no Jornal Nacional”, que apenas 2% dos apresentadores/as das TVs no Brasil são negros/as. Branquitude, no Brasil também se expressa Ana Maria, no número de pessoas negras assassinadas no país crescerem11.5% e o de pessoas brancas, reduzir em 12.0%. 

Enfim, ainda bem que nossa militância está atenta e a apresentadora teve que se retratar publicamente. Mas, não deixa de ser lamentável, pois o movimento Vidas Negras Importam, mostrou claramente que a “branquitude” no mundo caminha no sentido inverso, ou seja, reconhece a condição de privilegiada e nega a supremacia branca. 

“Branquitude”, Ana Maria Braga, conforme mais uma vez afirma Cida Bento, não diz respeito aos discursos ingênuos que afirmam: “somos todos iguais perante Deus, ou perante as leis”; ao contrário, reconhece que “alguns são mais iguais do que os outros” e reverte o processo de se situar no espaço dos mais iguais para reivindicar a igualdade plena e de fato, para todos”.

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Mestre em Cultura e Sociedade pela Ufba. Ex-presidente da Fundação Palmares, atualmente é presidente da Fundação Pedro Calmon - Secretaria de Cultura do Estado da Bahia.

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